Publicado em: 08/12/2022
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)
prevê alta dos custos de produção do agronegócio em 2023. Para a entidade, o
próximo ano será de desafios, tanto no ambiente interno quanto no cenário
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A CNA apresentou, hoje (7), em entrevista coletiva, o balanço da
atividade agropecuária em 2022 e as perspectivas para 2023.
De acordo com a entidade, do lado doméstico, há
incertezas sobre o controle das despesas públicas e a condução da política
fiscal que devem impactar os custos do setor agropecuário, sobretudo em
questões tributárias. “A taxa Selic [juros básicos da economia] deve se manter
elevada no próximo ano, acarretando mais custo para o crédito para consumo,
custeio e investimento. E o crédito privado deve se consolidar como alternativa
para o produtor financiar sua produção nas próximas safras”, avaliou.
O diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi, explicou que a
proposta de emenda à Constituição (PEC) da Transição pode elevar o risco de
endividamento do governo, o que levaria à alta da inflação e consequente
aumento dos juros. Ele defendeu essa flexibilização do teto de gastos por um
prazo menor e não por quatro anos, como defendia a equipe de transição.
Ontem (6), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ)
do Senado aprovou a medida para dois anos.
Pela proposta, serão destinados R$ 175 bilhões para pagamento do Bolsa Família,
no valor de R$ 600 mensais, mais R$ 150 por criança de até 6 anos em 2023, além
de recursos para ampliar investimentos.
Lucchi concorda que é preciso revisar e criar uma nova regra
para o teto de gastos. “Acho viável ter uma nova regra. Por exemplo,
dinheiro de convênios, trabalhamos a questão dos fertilizantes, buscamos
recursos para o Serviço Geológico do Brasil, mas não poderia ampliar recursos
externos porque esbarrava na lei do teto. Então, cabe uma análise, o que tem
que tomar cuidado são os valores colocados para o próximo ano e o período
[prazo para flexibilização]”, disse.
Instituída em 2016, a Emenda
Constitucional do Teto de Gastos limita o aumento do orçamento público ao crescimento da inflação do ano
anterior.
Já no cenário internacional, as
previsões de desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) mundial podem
influenciar o comportamento das exportações brasileiras do setor no próximo
ano. Também há estimativas de queda de crescimento econômico de alguns dos
principais parceiros comerciais do Brasil, como China, Estados Unidos e União
Europeia, além da incerteza na disponibilidade global de grãos e de insumos
causados pela guerra da Rússia na Ucrânia.
Previsões
de crescimento
A estimativa para o próximo ano é
de um cenário que varia de estabilidade a um crescimento de até 2,5% para o PIB
do agronegócio, em relação a 2022. Segundo a CNA, isso se deve aos elevados
custos de produção, que devem permanecer no próximo ano, e da tendência de
queda nos preços internacionais das commodities agrícolas.
“Entretanto, mesmo com a projeção de alta menor do PIB, o
resultado sinaliza uma recuperação se comparado com o PIB do agronegócio deste
ano, que deverá fechar em queda de 4,1%, depois de registrar recordes em 2020 e
2021, reflexo da forte alta dos custos com insumos no setor, especialmente pela
elevação dos preços dos defensivos e fertilizantes, que superaram os 100% de
alta neste ano”, explicou a CNA.
Para o Valor Bruto da Produção (VBP), que mede o faturamento
da atividade agropecuária “dentro da porteira”, a tendência para o próximo ano
é de um crescimento de 1,1% em relação a 2022, “mostrando um ritmo menor de
expansão, puxado pelo comportamento da pecuária, que deve ter uma
receita 2,3% menor em 2023 em relação a este ano”. Já no ramo agrícola, a
receita deve ter alta de 2,8%.
A estimativa para a safra de grãos 2022/2023 é de um aumento
de 15,5% (ou 42 milhões de toneladas) em relação à safra 2021/2022, atingindo
313 milhões de toneladas. Esse crescimento é reflexo da elevação na área
plantada, estimado em 76,8 milhões de hectares na safra atual. Apenas na
cultura da soja, a área pode chegar a 43,2 milhões de hectares, superando em 4%
o ciclo anterior.
“A oleaginosa também deve recuperar a produtividade,
favorecida pelas condições climáticas, em 17% na comparação com a safra passada
e a produção deve totalizar 153,5 milhões de toneladas”, informou a CNA.
Comércio
exterior
Apesar dos desafios, o ano de 2023 tem boas perspectivas para
que o Brasil continue aumentando a sua participação no comércio agrícola
internacional. Na avaliação da CNA, a expectativa é de que o comércio
internacional de bens deve desacelerar, com previsão de aumento de apenas 1% no
volume transacionado, bem abaixo dos 3,4% esperados para esse ano, segundo
dados da Organização Mundial de Comércio.
“Neste contexto, o comércio agrícola deve seguir a mesma
linha, crescendo a níveis menores do que em anos anteriores em razão do
crescimento mais lento das importações da China, a retomada econômica mundial
em função da pandemia de covid-19 e o conflito entre Rússia e Ucrânia e seus
impactos – aumento preço insumos, crise energética, redução da oferta de
grãos”, diz a entidade.
Por outro lado, a previsão é de que haja aumento das
importações mundiais dos principais produtos exportados pelo Brasil, embora a
taxas inferiores às registradas nos anos anteriores. O consumo mundial de soja
deve aumentar 1% em 2023, concentrado nos países em desenvolvimento, que devem
responder por 74% desse consumo no ano que vem.
A CNA diz que vai seguir atuando para defender os interesses
do produtor rural no exterior, para evitar a imposição de barreiras comerciais
injustificadas e a taxação das exportações, além de seguir com ações de promoção
do agro brasileiro e de abertura comercial. O projeto Agro.BR deve ser
intensificado. Ele trabalha com a internacionalização de pequenos e médios
produtores rurais de cadeias menos tradicionais, como mel, pescado e frutas.
“A CNA também espera o avanço de acordos comerciais e vai
monitorar e subsidiar o governo para evitar prejuízos aos produtores rurais
brasileiros na questão das diligências devidas, com atenção especial para os
mercados dos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia”, completou.
Balanço
2022
Segundo a CNA, este ano foi marcado, entre outros fatores,
por uma forte alta dos custos com insumos no setor agropecuário, principalmente
pela elevação dos preços de defensivos e fertilizantes. Esta será a principal
razão para a queda prevista de 4,1% do PIB do agronegócio em 2022. “Também
contribuíram para pressionar o PIB para baixo as reduções de produção em
atividades importantes, como soja e cana-de-açúcar”, explicou a entidade.
Já o Valor Bruto da Produção deve alcançar R$ 1,3 trilhão em
2022, crescimento de 2,2% em relação a 2021. No ramo agrícola, a receita
deve subir 3,3% em relação a 2021, alcançando R$ 909,3 bilhões. Na pecuária, a
previsão para este ano é de estabilidade, com aumento 0,1%, alcançando R$ 448,5
bilhões.
As principais cadeias que mais influenciam no VBP são a
soja, a carne bovina e o milho, que, somados, representam 58,4% do total.
No comércio exterior, de janeiro a novembro deste ano, as exportações brasileiras de produtos agropecuários totalizam US$ 148,3 bilhões, superando em 23,1% o total vendido em todo o ano de 2021, de US$ 120,5 bilhões. Nos onze primeiros meses de 2022, o agro respondeu por 48% das vendas externas totais do Brasil.
Fonte: Bem Paraná / Foto: Wenderson Araujo/Trilux