Publicado em: 05/06/2023
O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 1,9% no
primeiro trimestre de 2023, na comparação com os três meses anteriores,
conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
divulgados nesta quinta-feira (1/6). Foi a maior variação desde o último
trimestre de 2020, graças à surpresa positiva do setor agrícola, que saltou
21,6% na mesma base de comparação, o melhor desempenho do segmento desde 1996.
O resultado positivo do PIB, que somou R$2,6 trilhões nos
três primeiros meses do ano, ficou acima das expectativas do mercado. A mediana
das estimativas dos analistas era de 1,2%. Diante da surpresa positiva,
economistas estão corrigindo para cima as previsões para o PIB deste ano. A
maioria passou a prever avanço perto de 2%. Conforme os dados do IBGE, o PIB
cresceu 4% na comparação com o mesmo período de 2022 e, no acumulado de quatro
trimestres até março, registrou avanço de 3,3%. O órgão revisou a queda do PIB
do quarto trimestre do ano passado de 0,2% para 0,1%.
Ranking
O crescimento do primeiro trimestre colocou o Brasil em
quarto lugar em um ranking de 61 economias listadas pela Austin Rating. Na
liderança, ficou Hong Kong, com expansão de 5,3%. Na sequência, Polônia e
China, com taxas trimestrais de 3,8% e de 2,2%, respectivamente. Na América
Latina, a Colômbia foi o país com o segundo melhor desempenho, depois do
Brasil, registrando avanço de 1,4%. Os Estados Unidos ficaram em 9º lugar, com
alta no PIB de 1,3%.
O presidente Lula comemorou o resultado e afirmou que a
economia “está melhorando”. Na visão de analistas, contudo, o fato de a
economia estar crescendo, mesmo com a taxa básica de juros (Selic) em 13,75% ao
ano desde agosto do ano passado, dá mais argumentos para o Banco Central manter
o atual ritmo da política monetária e só iniciar o ciclo de redução dos juros
no segundo semestre.
“Foi uma surpresa muito positiva. Claro que o agronegócio
ajudou bastante e está segurando a economia. Mas, tanto o investimento quanto o
consumo das famílias que, somados, representam algo entre 85% e 90% do PIB,
desaceleraram. Isso acaba naturalmente tendo um efeito além da política
monetária, o que não será garantia de que esse bom desempenho prossiga no
segundo semestre”, alertou o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini.
“Esse resultado acima do previsto enfraquece o argumento
político de que o país está sofrendo. Existe um choque positivo de oferta e o
Banco Central olha para isso de forma neutra e com um viés conservador, porque
as expectativas de inflação ainda estão desancoradas”, disse Marco Caruso,
economista-chefe do Banco Original. Ele espera queda dos juros apenas entre
outubro e novembro.
Revisões
Após a divulgação dos dados, o economista-chefe da MB
Associados, Sergio Vale, elevou de 1,3% para 2,1% a previsão de crescimento do
PIB deste ano. “Não vai ter menos do que isso. Seria preciso uma recessão”,
disse ele, que classificou o resultado do trimestre como “uma bela surpresa”.
Contudo, Vale não descarta PIB negativo no segundo trimestre. “Seria uma queda
0,2%, o que é normal, porque é um efeito estatístico sobre uma base grande”,
afirmou. Ele lembrou, ainda, que, nos próximos trimestres, fora do período de
safra, vai ser difícil o agronegócio continuar ajudando no crescimento do PIB.
Alessandra Ribeiro, economista e sócia da Tendências
Consultoria, adiantou que deverá elevar a estimativa do PIB deste ano de 1,4%,
para 1,9%. “Os dados mostram uma resiliência maior na atividade econômica do
que o mercado esperava. Mas estamos mais conservadores, porque a economia ainda
deve desacelerar ao longo do ano. A saúde financeira das famílias não deve
ajudar, porque o endividamento está muito elevado”, destacou.
A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, admite
ser possível que o PIB cresça 2,3%, neste ano, “se não houver contratempos”, e,
com isso, é possível que o Ministério da Fazenda revise a atual previsão de
1,9% para a expansão da economia.
A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do
Instituto Brasilerio de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), faz
projeções mais conservadoras e elevou a previsão de alta do PIB deste ano de
0,8% para 1,3%. Ela lembrou que, se não fosse o agronegócio, a expansão da
economia no trimestre teria sido 1,2 ponto percentual menor, ou seja, de 0,7%.
“Uma parte da economia está se beneficiando desse resultado
positivo, mas ainda existe um outro lado que não está vendo esse PIB mais
robusto: aqueles que não estão recebendo aposentadoria com correção acima da
inflação, não têm assistência do governo e não conseguem empréstimos porque o
crédito está muito caro”, afirmou a economista do Ibre.
Apesar das revisões para cima, analistas ressalvam que o desempenho
mais favorável do PIB aconteceu do lado da oferta. Do lado da demanda, os
números são preocupantes e refletem o aperto da política monetária,
especialmente os investimentos, que caíram além do esperado.
Investimentos
A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que mede os
investimentos na economia, recuou 3,4% no primeiro trimestre na comparação com
os últimos três meses de 2022. Outro termômetro de investimentos são as
importações, que desabaram 7,1% no trimestre, na mesma base de comparação. “Isso
quer dizer que as empresas não estão comprando insumos para ampliar a
produção”, alertou Silvia Matos. Ela lembrou que as exportações também
registraram queda, de 0,4% no trimestre.
O consumo das famílias, apesar de registrar crescimento de
0,2%, apresentou desaceleração em relação aos trimestres anteriores, mostrando
a perda de potência desse importante motor de crescimento da economia. O
consumo do governo manteve-se praticamente estável, com alta de 0,3%.
Fonte: Correio Braziliense/ Foto: Paulo Fridman/Corbis via Getty Images