Publicado em: 04/03/2022
Depois da seca,
a falta de insumo. O estoque de fertilizantes no país só deve durar até junho,
de acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) com base em
dados de agentes do mercado. O prazo indicado é anterior ao início da próxima
safra, prevista para setembro.
O agronegócio,
um carro-chefe da economia brasileira, já enfrentava um cenário de escassez de
oferta e reajustes elevados nos preços de fertilizantes desde o ano passado,
com aumentos acima de 300%, no caso da ureia. A situação tende a piorar ainda
mais, pois ainda não se consegue dimensionar o impacto da guerra na Ucrânia
sobre a produção brasileira de alimentos.
A crise no
abastecimento já existia antes da guerra, devido a sanções internacionais
contra a Bielorrússia. O alvo é o presidente daquele país, Alexander Lukashenko:
pesa sobre ele uma série de acusações, como fraude na eleição, tráfico de
imigrantes e violação aos direitos humanos.
O volume atual
de fertilizantes no país está acima da média de anos anteriores, mas o Brasil
importa 9 milhões de toneladas por ano de insumos para o produto do Leste
Europeu, ou seja, cerca de 25% de tudo que é comprado no exterior.
4º maior
consumidor
Os preços já
vinham em trajetória de escalada, com alta de mais de 100% em 2021. O fosfato
saiu de US$ 400 a tonelada para US$ 800 no fim do ano passado. O potássio
saltou de US$ 290 para US$ 780. Com os problemas nas cadeias de logística e
produção em razão do conflito, haverá novos aumentos.
Segundo
analistas, o setor só não foi mais afetado no ano passado porque firmou
contratos antes de setembro, quando a cotação explodiu. Neste início de ano, as
cotações estão mantendo os mesmos níveis de 2021. Mas a previsão agora é de
alta entre 10% e 20% no primeiro semestre, dependendo do que acontecer com as
exportações da Bielorrússia. E a guerra na Ucrânia pode causar aumentos
generalizados.
O Brasil é
responsável por 8% do consumo global de fertilizantes, segundo dados da
Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República. É o
quarto país em consumo, atrás de China, Índia e EUA. A velocidade de
crescimento da demanda tem superado a oferta nacional, e o país tem sido
atendido por importações. Na década de 1990, o país chegou a exportar
fertilizantes, hoje busca o produto no exterior.
O governo se
prepara para lançar até o fim do mês um Plano Nacional de Fertilizantes, para
que o país se torne menos dependente de importações da matéria-prima do NPK
(nitrogênio, fósforo e potássio, principal fórmula para a produção do insumo
agrícola). Fundamentais para o desenvolvimento de qualquer fertilizante,
potássio e fosfato são elementos com baixa produção nacional.
— Uma das
explicações está no conhecimento geológico limitado no país. Mas há fatores que
desestimulam a produção, como a alta tributação do ICMS, que só vai se
equilibrar em 2024, e a burocracia, que impede o desenvolvimento de projetos —
disse Julio Cesar Nery Ferreira, diretor de Sustentabilidade e Assuntos
Regulatórios do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
ntonio Galvan,
presidente da Aprosoja, explicou que existe um depósito no solo, que restou da
safra passada, com fósforo e potássio. Isso permite o uso de metade da
quantidade de fertilizantes usada normalmente, sem prejudicar a colheita. Mas
destacou que produtos como arroz, trigo e milho, que dependem de nitrogenados,
devem ser mais afetados.
Diretor-presidente
da Portos do Paraná, Luiz Fernando Garcia, disse que o setor está apreensivo em
relação ao conflito. Segundo ele, o Porto de Paranaguá recebe 27% das
importações brasileiras de fertilizantes:
— O mercado
brasileiro já vinha antecipando a compra dos insumos agrícolas.
Questão de
preço
Segundo Paulo
Feldmann, professor de Economia Brasileira na USP, o país tem dificuldades para
exploração mineral em territórios protegidos por legislação específica e a
carga de impostos elevada torna o fertilizante nacional mais caro e menos
competitivo:
— A
desindustrialização é uma doença brasileira. Produzir no país é caro e pouco
competitivo. É mais barato importar. Isso mostra que nunca houve preocupação
com um setor que é estratégico.
Para Walter
Franco, professor de Macroeconomia do Ibmec, o crescimento acelerado do setor
de agronegócios no país, nas últimas décadas, levou ao aumento da busca dos
fertilizantes do exterior, mais baratos.
— O agronegócio
brasileiro decolou nas últimas décadas. Inclusive na pandemia não parou. É
natural que o país precise de mais fertilizantes e não há problema em importar
produtos mais baratos. O Brasil importa 25% dos fertilizantes russos, tem
outros fornecedores como China, Canadá, Israel e países africanos e pode
contornar esse problema — disse Franco.
Um consultor de
agronegócios, que pediu para não se identificar, avalia que o país terá
dificuldades em buscar novos fornecedores. Isso porque a maior parte do mercado
de fertilizantes está nas mãos de poucos países e não é possível aumentar a
produção de uma hora para outra.
O governo vem
buscando elevar as compras do Canadá e mandou missões para China. Mas é um
processo demorado.
De acordo com
um estudo da SAE, o principal nutriente aplicado no país é o potássio, com 38%,
seguido por cálcio, com 33%, e nitrogênio, com 29%. A maior cultura agrícola
brasileira é a soja, que demanda mais de 40% dos fertilizantes aplicados.
“O Brasil
tornou-se um dos maiores importadores de fertilizantes do mundo, a despeito de
possuir grandes reservas de matérias-primas necessárias à produção de
fertilizantes, tais como gás natural, rochas fosfáticas e potássicas e
micronutrientes de padrão mundial”, diz o levantamento.
De acordo com a
Agência Nacional de Mineração (ANM), as reservas brasileiras de potássio estão
localizadas em Sergipe e no Amazonas.
Fonte: O Globo
/ Foto: Andrey Rudakov / Bloomberg