Publicado em: 26/04/2022
Os produtores
paranaenses colocam as máquinas no campo para o início do plantio de trigo.
Pouco mais de 0,5% da área que será destinada ao cereal já foi semeada.
Apesar do cenário internacional de preços elevados e de oferta incerta, o que deveria
favorecer o plantio, os agricultores do Paraná não estão apostando muito nessa
cultura.
O Deral
(Departamento de Economia Rural) do Paraná mantém expectativas de uma redução de área neste ano.
Os dados mais recentes indicam uma queda de 4% ante 2021, para 1,17 milhão de
hectares.
É uma queda
esperada desde a safra anterior, diz Carlos Hugo Godinho, analista de trigo da
entidade. Na safra 2020/21, o atraso no plantio da soja retardou o de milho,
favorecendo o trigo. O resultado foi um aumento de área de trigo devido à perda
do período ideal para a semeadura do milho.
Neste ano, o
ritmo de plantio voltou ao normal, e prevaleceu a opção pelo milho onde há um
histórico de plantio da safrinha, diz Godinho.
O preço da saca
de trigo, a R$ 93, está elevado, mas os custos não deixam muita margem para o
agricultor, principalmente para os que deixaram para comprar os insumos nos
últimos meses.
Essa opção do
produtor paranaense pelo milho safrinha fez a Safras & Mercado refazer seus
cálculos para o trigo. Élcio Bento, analista da empresa, prevê uma área total,
agora, de 3 milhões de hectares no país, com produção recorde de 9,5 milhões de
toneladas. A estimativa anterior era de 3,6 milhões de hectares.
O potencial de
produção deste ano é bom, devido ao clima mais frio, e o cenário de preços é
favorável, diz o analista. Com isso, a produção do Rio Grande do Sul deverá superar a do Paraná
novamente.
Alencar Rugeri,
diretor técnico da Emarter/RS, diz que o cenário é favorável para o Rio Grande
do Sul, e o produtor está decidido a aumentar a área de trigo."Tecnicamente,
as perspectivas são boas, mas há alguns entraves para serem resolvidos",
afirma. Entre esses gargalos, o diretor coloca a dificuldade de recursos e a
alta do custo dos insumos.
É um ano raro,
e o produtor vai plantar mais. Quanto mais ainda, porém, não dá para saber,
afirma. "Não dá para brincar. O produtor tem de ser profissional, diante
de custos tão elevados. A gestão de negócios será essencial."
A guerra da Rússia com a Ucrânia não é o único fator de alta dos
preços do trigo, mas apenas mais um deles, segundo Bento.
O tamanho da
próxima safra mundial está indefinido. O clima afeta EUA e China,
dois dos grandes produtores mundiais. Os EUA exportam, e a China, se entrar no
mercado mundial comprando, altera os preços.
Além disso, a
guerra não está definida, e os dois países são representativos no mercado
internacional.
Antes de a
Rússia invadir a Ucrânia, porém, os preços do trigo já vinham subindo. Canadá,
Rússia e Estados Unidos tiveram quebra na última safra, e os estoques mundiais,
que eram de 300 milhões de toneladas há duas safras, estão em 278 milhões,
segundo o Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).
O Cepea (Centro
de Estudos Avançados em Economia Aplicada) mostra a forte evolução interna do
cereal. Em abril de 2019, a tonelada de trigo estava em R$ 881, subindo
continuamente até chegar aos atuais R$ 1.916.
Internamente, o
milho tem um apelo maior para o produtor do que o trigo. O milho é um mercado
mais dinâmico, enquanto o trigo depende muito dos moinhos, segundo o analista
da Safras & Mercado.
Nos Estados
Unidos, os pesados investimentos na produção de etanol também tornaram o milho
mais atrativo do que o trigo, segundo ele.
O mercado
nacional de trigo começa a trilhar os caminhos do milho, aumentando as
exportações. Nos três primeiros meses deste ano, as vendas externas de trigo
somaram 2,21 milhões de toneladas, segundo a Secex (Secretaria de Comércio
Exterior).
Neste mês, nos
primeiros 14 dias úteis, as vendas atingiram 125 mil toneladas, conforme dados
divulgados nesta segunda-feira (25).Pelo menos 2 milhões de toneladas saíram do
Rio Grande do Sul. O produto gaúcho caiu nas graças de importadores, e a
presença no mercado externo faz bem para o desenvolvimento do mercado interno,
diz Bento.
Ele alerta, no
entanto, para o fato de que o custo de produção do produto brasileiro ainda tem
uma grande desvantagem em relação a grandes produtores, como Canadá, Rússia e
EUA.
Neste momento,
os preços internacionais elevados e o câmbio alto facilitam a colocação do
trigo brasileiro no exterior. Sem esses fatores condicionantes, será mais
difícil.
Fonte: Folha de
São Paulo / Foto: Mauro Zafalon/Folhapress