Publicado em: 08/03/2022
O setor de
transporte de carga já teme diferentes reflexos da guerra entre Rússia e
Ucrânia, que teve início em 24 de fevereiro. Com o aumento do preço do diesel
na bomba, o segmento prevê o repasse desse custo aos fretes e aguarda também
aumentos de preços de pneus e outros insumos. A redução da demanda por
transporte é outra possibilidade. Nos primeiros negócios da segunda-feira (7 de
março), a cotação do preço do barril de petróleo do tipo Brent chegou a quase
US$ 140.
“Já se espera
para breve um reajuste do diesel e isso pode ser só o começo de uma grande onda
de aumentos”, afirma o CEO da startup Gasola, Ricardo Lerner. Ele acredita em
um reajuste inicial de R$ 0,25 no valor do diesel. “Vai gerar pressão
inflacionária”, recorda. A Gasola controla um aplicativo que conecta frotistas
e postos para o pagamento de combustível.
“O
transportador não tem condição de absorver aumento de custos, temos de fazer os
repasses”, lamenta o presidente da ABC Cargas, Danilo Guedes. Diego de Tomasi,
vice-presidente do Setcergs (sindicato que reúne transportadoras no Rio Grande
do Sul), afirma: “Vivemos um cenário bastante tenso desde 2021 e com o novo
conflito acreditamos em reajustes também em pneus, lubrificantes, Arla 32 e
outros em cadeia.”
De Tomasi diz
que as empresas de sua região estão com valores de frete defasados e que, por
isso, terão de repassar algum porcentual, mas recorda que as quedas recentes na
cotação do dólar tendem a reduzir o impacto da alta do petróleo.
Marcelo
Rodrigues, vice-presidente do Setcesp (entidade paulista do setor de carga),
lembra que o diesel subiu cerca de 50% no ano passado e que reajustes no frete
serão inevitáveis em caso de novos aumentos no combustível: “Com o mundo já em
caos [como consequência da pandemia de Covid-19], imagine o que pode ocorrer em
relação à guerra.”
O executivo do
Setcesp também cita como problema a redução do transporte de itens exportados à
Rússia como soja, carnes de frango e bovina, café, amendoim e açúcar, além dos
fertilizantes trazidos daquele país.
O assessor
técnico da Associação Nacional do Transporte de Carga e Logística
(NTC&Logística), Lauro Valdivia, teme o cenário de recessão em caso de
prolongamento do conflito, “com consequente redução do volume de carga
transportada”. E recorda que os reajustes do diesel são mais sentidos pelos
autônomos e pequenos transportadores: “O combustível representa 35% das
despesas para as grandes empresas, mas para os pequenos e autônomos esse peso é
de 40% a 50%”.
Provável
aumento em pneus
Além das
frequentes altas nos combustíveis no período recente, o setor de transporte
enfrentou ainda o aumento de preços e desabastecimento de pneus. “Também sou um
transportador e antes da pandemia eu pagava R$ 1.250 num pneu comum para
carreta [medidas 295/80- 22.5]. Hoje, está barato quando encontro por R$
2.500”, recorda o vice-presidente do Setcesp.
O diretor
comercial da transportadora Braspress, Giuseppe Lumare, acredita que, além do
provável reajuste dos pneus (por causa de matérias-primas derivadas de
petróleo), pode ocorrer a falta do produto em razão da demanda atual por
caminhões.
Em 2021,
segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores
(Anfavea), foram produzidos no Brasil 158,8 mil caminhões, o melhor resultado
desde 2013, e expectativa para este ano é de cerca de 170 mil. Durante o ano
passado já houve falta de pneus nas linhas de montagem.
Além da
indústria de caminhões, os fabricantes de carretas consumiram grande quantidade
de pneus: no ano passado foram emplacados 90,3 mil implementos rebocáveis,
número recorde para o setor, que pode crescer mais 10% este ano.
Ao contrário do
que estimam outros transportadores e representantes do setor, Lumare, da
Braspress, acredita nem todos vão repassar aumentos de diesel em curto prazo.
“As grandes transportadoras reajustaram seus preços neste início de ano e não
devem repassar aumentos de diesel nos próximos 90 dias, a não ser que ocorra
uma grande mudança no cenário de guerra”, diz o diretor comercial da companhia.
O executivo
também acredita em um cenário favorável ao Brasil: “Há a possibilidade de
atração de capital para cá com o desinvestimento na Rússia e apreciação do
real”. De acordo com Giuseppe Lumare, a Braspress anotou aumento de 17% na
quantidade de fretes neste primeiro bimestre na comparação com o mesmo período
do ano passado. “E em conversas com concorrentes, soubemos que tiveram
crescimento semelhante.”
Fonte: Estadão
/ Foto: Divulgação