Publicado em: 08/03/2023
A rodovia BR-163, que atravessa o Brasil de Norte a Sul, é
considerada como prioritária para o escoamento da produção de grãos. É no
Paraná que a BR-163 concentra um trecho complicado, de 74 quilômetros entre as
regiões oeste e sudoeste do estado, que acumula promessas de duplicação, mas
segue inacabado. Apesar de não ser tão longo, o percurso é suficiente para
travar a logística e somar prejuízos. Enquanto isso, o leito antigo da rodovia,
para onde o tráfego é canalizado, está sem conservação e deteriorado.
O consultor em Infraestrutura e Logística da Federação das
Indústrias do Paraná (Fiep), João Arthur Möhr, lembra que se trata de uma
obra que deveria estar pronta há muito tempo e que tanto a paralisação da
duplicação quanto as más condições do trecho em uso da BR-163, no leito antigo,
são tratados com preocupação pelo setor produtivo.
“Esse é o pior trecho de rodovia federal do Paraná, o que
vai de Cascavel a Realeza e se trata de uma importante rodovia para o estado
com obras que se arrastam há tantos anos. É um importante canal ligando,
inclusive, Paraná com Santa Catarina, onde estão dois grandes produtores
nacionais”, destacou Möhr. Ele defende um movimento político para a retomada e
conclusão da obra.
As más condições e a não conclusão da duplicação da BR-163
têm sido tema frequente em reuniões de líderes políticos regionais, como os
prefeitos na Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (Amop). Apesar de uma
comitiva dos chefes do Executivo regional, na área da Amop, estarem em Brasília
nesta semana, o assunto não deverá entrar em pauta neste momento. Um grupo de
gestores do oeste do Paraná se organiza para ainda neste mês, junto ao governo
federal, reforçar o pedido para retomada dos trabalhos.
A Associação dos Municípios do Paraná (AMP) também tem tido
a rodovia nas pautas frequentes de logística. O presidente da associação, o
prefeito de Jesuítas Junior Weller (MDB), e comitiva estiveram na capital
federal, em fevereiro, pedindo apoio ao deputado Sergio Souza (MDB) para a
retomada dos trabalhos.
Idas e
vindas
A BR-163 começou a ser duplicada em 2015, no trecho do
Paraná com fluxo intenso por onde trafegam, em média, nove mil veículos por dia,
segundo levantamento do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes
(Dnit). Ainda segundo o Dnit, 70% são caminhões.
De responsabilidade do governo federal, por meio do Dnit, a
promessa de conclusão dos trabalhos era para três anos depois. Desde então,
passou pelos governos de Dilma Rousseff, de Michel Temer, de Jair Bolsonaro e
agora Luiz Inácio Lula da Silva.
A expectativa é que a BR-163 tenha os canteiros de obras
retomados, conforme anunciado pelo atual governo. A rodovia entrou para a lista
das obras prioritárias no plano dos 100 primeiros dias de governo, mas ainda há
dúvidas sobre a sequência dos trabalhos.
Em um trajeto de cerca de 30 quilômetros, não sequenciais, a
pista duplicada foi liberada para o tráfego. Eles estão na altura dos municípios
de Cascavel, Santa Tereza do Oeste, Lindoeste, Santa Lúcia e Capitão Leônidas
Marques. Em outros 20 quilômetros, passando pelos mesmos municípios, a
duplicação foi feita, mas segue interditada por falta do chamado agulhamento,
sinalização sem a qual a BR-163 não pode ser utilizada.
Em outros 23 quilômetros - quase um terço do inicial
previsto para a duplicação - houve pouco avanço. O percurso mais longo sem
obras está entre os municípios de Capitão Leônidas Marques e Realeza. Ainda é
preciso destinar orçamento e uma nova licitação para só então reiniciar os
trabalhos. A Superintendência do Dnit não informou à reportagem os valores
calculados. O setor produtivo regional calculava ao menos R$ 130 milhões, em
levantamento prévio considerando o reajuste de contrato e o percentual de obras
a serem concluídas.
Leito
antigo destruído
Ruim com o trecho já duplicado, pior no leito antigo da
rodovia. Buracos, ondulações gigantescas, deformidades e falta de sinalização
custam caro para a manutenção. A situação piora no percurso em que o tráfego se
afunila em pista simples. O tráfego de caminhões carregados e a falta de
manutenção tornam a rodovia um desafio logístico.
A situação crítica tem levado uma parcela dos motoristas a
se ariscarem e seguirem viagem no trecho duplicado não liberado para passagem.
Onde o fluxo segue lentamente, caminhões, veículos de passeio e ônibus se
aventuram em um trajeto mal conservado, com muitos buracos.
Estes quase 74 quilômetros estão entre os municípios de Cascavel
(oeste) e Realeza (sudoeste do Paraná). Juntas, as duas regiões são as maiores
produtoras agropecuárias do estado, com escoamento para o Brasil e para o
exterior. “Está cada vez mais difícil, a gente não faz uma viagem sem quebrar
alguma coisa, estourar um pneu”, contou o caminhoneiro Sandro Santos que está
há 40 anos no trecho. “Eu rodo o Brasil inteiro, mas essa é uma das regiões em
que a BR-163 está em pior condição”, completou.
Trajeto
percorrido pela BR-163
A duplicação da BR-163 entre Cascavel e Realeza tinha
orçamento inicial previsto em R$ 549 milhões, mas já consumiu R$ 592 milhões. A
reportagem da Gazeta do Povo questionou sobre o valor final ao Dnit, mas não
obteve retorno até esta publicação.
O projeto havia sido anunciado como inovador, com asfalto de
concreto que propiciaria melhores condições de trafegabilidade. A realidade é
que já é possível encontrar deformidades, inclusive na pista recente
construída. O trecho entre os quilômetros 197 (Cascavel) e 123 (Realeza),
totalizando 74 quilômetros, foi integralmente percorrido pela reportagem da
Gazeta do Povo. Foram necessárias quase duas horas de viagem.
Pelo caminho foram encontradas filas intermináveis e
veículos com defeito às margens da rodovia. A insegurança também chama atenção.
No sentido oeste/sudoeste não há terceiras faixas e, apesar de ser uma estrada
com pontos sinuosos, falta sinalização, tanto horizontal quanto vertical.
16% da
obra na BR-163 inacabada
O consórcio que estava responsável pelos serviços concluiu
84% da duplicação e, para os 16% restantes na BR-163, a Superintendência do
Dnit no Paraná afirma que terá de haver uma nova licitação. As equipes técnicas
vão avaliar o que será preciso na obra que entrou para o plano emergencial dos
100 primeiros dias do governo federal.
Não há previsão de quando a licitação deverá ocorrer.
“Sabemos, portanto, tratar-se de obra prioritária para o atual governo. A
Superintendência do Dnit no Estado do Paraná discute, neste momento, possíveis
linhas de ação a serem tomadas, as quais necessitam de levantamentos de campo,
atualização de projeto e de orçamento dos segmentos remanescentes, para a
subsequente contratação de novas empresas e retomada das obras, obviamente
condicionada ao devido e indispensável amparo orçamentário-anual”, alertou a
Superintendência em nota.
“Com os agulhamentos previstos no Contrato 09 489/2022,
planeja-se concluir 9 novos segmentos, perfazendo a extensão total de 23,020
quilômetros de novas pistas duplicadas”, completou o Dnit. Desses segmentos, o
órgão destacou que nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2022 foram
liberados ao tráfego 12,5 quilômetros de novas pistas.
Ponte
inoperante de R$ 20 mi
Há outro impasse: a obra da ponte sobre o Rio Iguaçu, no
município de Capitão Leônidas Marques, no oeste do Paraná. A estrutura passa
sobre um dos rios mais importantes do país, que deságua nas Cataratas do
Iguaçu, no município de Foz do Iguaçu.
Apesar de aparentemente pronta, a ponte sobre o Rio Iguaçu
ainda não está liberada pela passagem. Custou aos cofres públicos, à época,
quase R$ 20 milhões. “A ponte deve ser liberada em breve, assim que concluídos
os serviços de recomposição do greide [inclinação do eixo da estrada]
originalmente projetado, no encontro da ponte com o aterro”, informou o Dnit,
sem estipular data.
Após uma série de questionamentos enviados pela reportagem,
o Dnit limitou-se a informar que mais detalhes sobre a rodovia são aqueles
“amplamente divulgados pelo sítio eletrônico do Ministério dos Transportes, bem
como a apresentação do Plano de 100 dias”, indicando o link para acesso das
obras previstas. Nele não há, no entanto, detalhamentos para destinação por
obra: informa que todas as listadas como prioritárias contarão com aporte de R$
1,7 bilhão, até abril deste ano.
O Dnit também não informou se a pista em uso, no leito mais
antigo da rodovia, passará por melhorias de maior porte nos próximos meses. No
dia que a reportagem percorreu o trecho, encontrou uma equipe de manutenção
fazendo serviços pontuais.
Fonte: Gazeta do Povo / Foto: Juliet Manfrin/Especial para a
Gazeta do Povo