Publicado em: 20/06/2022
Para
especialistas em irrigação, o Brasil tem potencial para expandir a área
irrigada sem comprometer os outros usos de recursos hídricos por meio de
tecnologias. Atualmente o País tem 8,2 milhões de hectares irrigados com
potencial para 55 milhões, apenas sobre áreas que já estão em uso.
O tema foi debatido,
durante as comemorações do Dia Nacional da Agricultura Irrigada, promovido pela
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Durante a
palestra “Irrigação e Segurança alimentar”, o pesquisador da Escola Superior de
Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Alberto Barretto, explicou que o
Brasil tem potencial para atender a demanda mundial por alimentos com a
intensificação e a expansão sustentável da agricultura irrigada associada a
outras estratégias como a conectividade rural.
Segundo ele, o
agro brasileiro já evoluiu ao longo dos anos com uso de tecnologias, mas no
país ainda existem dois grandes paradoxos que precisam ser enfrentados: a
incorporação de terras e a segurança alimentar.
“Em poucos anos
seremos a maior potência de produção agrícola mundial e ainda não conseguimos
equalizar uma coisa tão básica e essencial que é a segurança alimentar do País.
Então, para essas duas questões, a agricultura irrigada se encaixa como uma
luva e entra como elemento estratégico”.
Barretto acredita
que a segurança alimentar é multidimensional, transborda os limites do rural e
tem a ver com a disponibilidade e utilização dos alimentos, pois ainda existem
brasileiros em insegurança alimentar.
“A combinação
equilibrada de disponibilidade, acesso e utilização dos alimentos é o que
compõe a segurança alimentar. Não adianta ter disponibilidade e não ter renda
ou ter renda e não saber utilizar esses alimentos para montar uma dieta que vai
manter a segurança alimentar”.
Para ele, é
possível aumentar a área irrigada, sem comprometer os outros usos em 26,7
milhões somente onde há agricultura. E se somar as áreas usadas com pastagens,
e que apresentam disponibilidade hídrica, ele afirma que é possível dobrar esse
número chegando a 53,4 milhões de hectares adicionais de área irrigada no País.
“Esse é um uso
seguro e pode ser um estoque não só brasileiro, mas planetário. Porque para
tratar a questão ambiental e segurança alimentar, a irrigação vem, primeiro,
cumprir a missão de fazer uma fronteira agrícola onde já existe agropecuária.
Inclusive, podemos pensar na irrigação como nossa última fronteira agrícola em
que esses 53,4 milhões de hectares é o que temos para trabalhar nos próximos 30
anos.”
Frederico
Cintra, coordenador Geral de Irrigação e Drenagem do Ministério da Agricultura,
também destacou o papel da irrigação como uma das principais tecnologias e
estratégias para o País avançar na segurança alimentar. Ele apresentou a
proposta de criação do Programa Nacional de Agricultura Irrigada que o órgão
está desenvolvendo.
“A irrigação
permite a diversificação da produção, reduz os riscos dessa produção, diminui a
pressão sobre novas fronteiras agrícolas e áreas de vegetação nativa, ajuda o
produtor a se adaptar e mitigar os gases de efeito estufa frente às mudanças
climáticas e traz desenvolvimento para região com geração de emprego e renda”.
Segundo ele, a
área irrigada no Brasil, que corresponde a 13,24% da área total agrícola, ainda
é muito pequena em relação a países como China, Índia, Estados Unidos, Paquistão
e Irã, mas tem potencial para expansão.
“Precisamos
avançar muito no crescimento da nossa agricultura irrigada, temos avançado nos
últimos anos, em torno de 250 mil hectares por ano, mas acredito que podemos
crescer com maior celeridade. O programa vai fazer chegarmos lá, crescer 500
mil ha/ano e alcançar esse potencial”.
Ele pontuou
alguns dos principais entraves para esse crescimento como burocracia nos
processos de outorga, logística e infraestrutura inadequadas, baixa
disponibilidade de carga e/ou distribuição de energia elétrica e governança
insuficiente dos recursos hídricos.
“A CNA ajudou o
Mapa a fazer a articulação junto aos agricultores irrigantes para que
conseguíssemos diagnosticar melhor os principais entraves da irrigação no
País”.
Cintra
ressaltou que o programa terá vigência de 2022-2030 e incluirá ações para
solucionar os entraves por meio da cooperação institucional, crédito e
incentivos fiscais, pesquisa e uma comunicação estratégica para levar
informação de qualidade à sociedade sobre a irrigação.
Rodrigo Mendes,
coordenador de Polos e Projetos de Irrigação do Ministério do Desenvolvimento
Regional (MDR), apresentou outra iniciativa pública relacionada à irrigação.
Ele explicou
como funciona o Programa dos Polos de Agricultura Irrigada do ministério que
trabalha pequenos territórios em regiões estratégicas do País para identificar
as demandas e elaborar soluções para os produtores locais.
“Os polos
agricultura irrigada são uma estratégia de alavancar a irrigação a partir de um
trabalho conjunto entre as organizações de produtores irrigantes e diversas
esferas de governo,” disse.
Cada polo
constrói uma carteira de projetos com as demandas e o comitê gestor do programa
prioriza cinco ações para serem solucionadas. “Vamos às bases, questionamos os
produtores e levantamos as demandas para sermos mais efetivos e assertivos nas
ações”.
Segundo Mendes,
atualmente apenas 3% da área irrigada é pública no Brasil e, por isso,
“precisamos de uma atuação forte para fortalecer a estrutura de irrigação no
governo e, para isso, é necessário o apoio privado para trazermos retorno às
demandas do setor”, ressaltou.
O MDR tem hoje
polos de irrigação na região do Oeste Baiano, Mato Grosso, Região do Vale
Araguaia, Planalto Central de Goiás, Noroeste de Minas Gerais, Sudoeste
Paulista, Noroeste do Rio Grande do Sul e Bacia do Rio Santa Maria, com
potencial irrigável de mais de seis milhões de hectares, mas apenas um milhão é
área irrigada.
Fonte: Dourados Agora
/ Foto: divulgação/Dourados Agora