Publicado em: 05/05/2022
O volume de fertilizantes desembarcados
no Porto de Paranaguá, o principal porto de entrada do produto no Brasil, vem
caindo desde fevereiro, quando eclodiu a Guerra da Ucrânia. Segundo o porto, o
problema não tem a ver com escassez
de insumos vindos da Rússia, mas sim com a falta de espaço
para armazenagem nos terminais privados e a corrida dos importadores para
garantir o produto.
Em fevereiro, foi importado 1,3 milhão de toneladas de
fertilizantes pelo porto localizado no litoral paranaense. Já em março, esse
volume caiu para 880 mil toneladas. O dado mais recente, de abril, mostra que a
tendência de queda se manteve, com recuo para 609,2 mil toneladas.
Além da queda em termos absolutos, o mês de abril também se destaca
como o primeiro, desde novembro do ano passado, a registrar um recuo no volume
importado em comparação com abril do ano passado —queda de 31%.
No período de seis meses, a maior taxa de crescimento foi
registrada em fevereiro, com incremento de 40% sobre 2021. Essa alta, no
entanto, já perdeu ritmo em março, quando os desembarques foram apenas 15%
maiores que em março de 2021.
No resultado acumulado nos primeiros quatro meses do ano há um
crescimento de 11% nos desembarques, com 3,7 milhões de toneladas
descarregadas, de acordo com o Porto de
Paranaguá.
O insumo é essencial
para a agricultura, e o Brasil é altamente dependente de
fornecedores estrangeiros para suprir sua demanda. A possibilidade de escassez
tem pressionado o presidente Jair Bolsonaro (PL), que tem no agro uma de suas
principais bases eleitorais.
O peso dos fertilizantes russos e a demanda brasileira

No fim de semana, o presidente declarou que "mais de 30
navios com fertilizantes estão a caminho da Rússia para o Brasil, resultado da
viagem" que fez em fevereiro a Moscou, de acordo com a Agência Brasil.
"Nossa agricultura não para", disse Bolsonaro.
No entanto, os dados de Paranaguá, por onde passam cerca de 25%
de todos os fertilizantes importados pelo Brasil, mostram que o
problema não está na falta de navios, mas na de espaço de
armazenagem. E pela gestão dos fluxos de entrada e saída desses estoques nos
armazéns, de responsabilidade de importadores e da indústria de fertilizantes.
"A Rússia continua carregando [fertilizantes] para o Brasil. Essa queda [em abril] tem a ver com armazenagem, e com as condições do mercado. Não temos espaço hoje na retroárea [terminas privados] para receber essa carga. E também houve uma compensação porque em um mês importou-se mais, e agora para compensar caiu a importação [mensal]", diz Luiz Fernando Garcia, presidente do porto.
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Por causa da
dificuldade de descarregar em Paranaguá, alguns poucos navios têm optado por
seguir viagem até o Porto de Rio Grande (RS), onde não tem faltado espaço nos
armazéns.
O custo dessa
operação varia conforme a carga e as condições contratuais da importação.
Poderá resultar eventualmente em economia em relação ao custo das diárias
extras decorrentes da impossibilidade de descarregar em Paranaguá. Os valores,
no entanto, não são divulgados: são negociados entre armador e importador, sem
ingerência da administração portuária.
Apesar dos
problemas, entraram no Porto de Paranaguá, nos últimos seis meses, 373 navios
carregados de fertilizantes. O maior movimento de entrada ocorreu em fevereiro,
quando foram registradas 78 embarcações. E o menor número, de 50, ocorreu em
abril.
"O que segue
acontecendo é a antecipação das compras de fertilizantes. Esses números
decorrem ainda daquela perspectiva de embargos econômicos a Belarus, do final
do ano passado, e do início da Guerra da Ucrânia, lembrando que quase um mês
antes da guerra já havia aquele anúncio de preparação da invasão, aquelas
imagens todas", diz Garcia.
Para o presidente
do porto, os importadores compraram volumes acima das necessidades atuais para
garantir a entrega dos produtos, que apresentaram forte valorização desde o ano
passado.
"Há um
desarranjo na logística [portuária] por causa dessas antecipações. Temos uma
capacidade de armazenar [nos terminais privados] de 3,5 milhões, e está tudo
cheio. Está chegando em um volume maior do que saindo com destino às
culturas", diz Garcia.
Para o presidente
de Paranaguá, uma parcela menor dos desembarques dos últimos dias já inclui
encomendas posteriores ao início da guerra, já que ele estima levar entre dois
e três meses entre a encomenda e a entrega em um porto brasileiro.
Nesta terça (3),
havia 14 navios em fila, abastecidos com 426 mil toneladas de fertilizantes,
aguardando para descarregar, movimento considerado normal pela administração do
porto.
Outras 7
embarcações já estão anunciadas para atracar no Porto de Paranaguá, com outras
172 mil toneladas.
Esse movimento fez
com que o porto desse prioridade, desde o segundo semestre do ano passado, ao
desembarque de fertilizantes.
"Revisitamos
as nossas ordens de serviços dando completa prioridade ao desembarque de
fertilizantes. Somos um porto relativamente pequeno, com pouco mais de 5
quilômetros de cais público, comparando a Santos que tem quase 20. Mesmo assim
conseguimos fazer quase 60 milhões de toneladas [de cargas gerais] no ano passado",
diz o executivo.
No Porto de Santos,
segunda entrada de fertilizantes no país em volume, houve crescimento de 28% no
volume importado no primeiro trimestre, para 2,3 milhões de toneladas, de
acordo com a administração portuária, que ainda não divulgou os números
relativos a abril.
Segundo o Porto de
Santos, o movimento de desembarque de fertilizantes tem ocorrido normalmente,
apesar do crescimento registrado, tanto nos terminais privados como no cais
púbico.
Fonte: Folha de
São Paulo / Foto: Eduardo Anizelli - 7.set.2018/Folhapress