Publicado em: 14/03/2022
As perspectivas
para a economia brasileira em 2022 não são muito animadoras. Mesmo com a
retomada gradual das atividades pós-pandemia a partir de 2021, o cenário
econômico reúne uma série de fatores que apontam para uma realidade desafiadora
em um futuro próximo. Nível de desemprego elevado com forte impacto na renda da
população, juros altos e inflação em ascensão são elementos que contribuem para
a redução no consumo e têm impacto nos investimentos. Para completar, a taxa do
PIB (Produto Interno Bruto) nacional está abaixo da média global.
Diante de
tantos indicativos de desaceleração econômica, empresas e indústrias são
obrigadas a procurar alternativas para compensar a baixa demanda interna e a
solução pode estar no comércio exterior. Países como os Estados Unidos, que
ensaiam uma retomada da economia, estão abertos aos produtos estrangeiros. No
ano passado, o Brasil comercializou um volume recorde de US$ 31 bilhões para os
EUA, o segundo maior parceiro brasileiro nas exportações, atrás apenas da China.
Atualmente, o Paraná
ocupa o sétimo lugar na lista dos estados brasileiros que mais exportam ao
mercado norte-americano. Em 2021, o Estado vendeu US$ 1,5 bilhão aos EUA, mas
esse ranking pode melhorar. Para isso, é essencial conhecer as expectativas do
mercado, identificar as oportunidades, estar atento às exigências impostas pelos
países importadores e se preparar para atendê-las. As chances de negócios
abrangem todos os setores e todos os portes de empresa, das pequenas às
grandes.
“Tivemos um
recorde de importação de alimentos no ano passado. Nos mercados dos EUA, faltam
produtos nas prateleiras. Temos vários polos de produção no Paraná, não só de
alimentos, mas na indústria têxtil, madeireira, moveleira. O Brasil tem a
possibilidade de comercializar produtos industrializados e o país busca
aumentar essa presença na indústria de transformação, não só no fornecimento de
commodities, mas trabalhar com produtos de maior valor agregado”, destacou
Degoncir Gonçalves, londrinense radicado no estado americano da Flórida, CEO e
fundador da DG4Business, empresa especializada em estratégias para negócios
internacionais.
POTENCIAIS
COMPRADORES
Abrir os olhos
para o mercado externo pode representar um fio de esperança para o empresariado
brasileiro em um período de tantas incertezas econômicas. Além dos EUA,
Gonçalves cita os 22 países árabes, potenciais compradores de alimentos
produzidos em abundância no Paraná. “Não é só a oportunidade, como um todo. Mas
fazer de uma forma muito responsável, entrar no mercado de uma forma adequada,
alinhar muito bem as expectativas para que a empresa esteja preparada para
atender a demanda e o nível de compliance”, reforçou o consultor.
Os empresários
que quiserem iniciar as negociações com o mercado externo devem se adequar as
certificações e licenças exigidas e contornar as barreiras não tarifadas. “Tudo
isso para que o empresário do Paraná, ao vir para cá, não se exponha e faça um
processo de entrada no país de forma adequada e confortável, o que chamamos de
soft landing (pouso suave, em tradução literal para o português).”
O processo de
entrada em um novo mercado, especialmente estrangeiro, ressaltou Gonçalves,
deve acontecer de forma gradual, sempre com foco na conquista da credibilidade,
fundamental para garantir a longevidade das transações comerciais com os países
estrangeiros. “Pode fazer um projeto piloto, começar com as pequenas
oportunidades e vai aprendendo melhor o sistema de fornecimento externo”,
orientou o consultor. “É possível fazer de uma forma que possa atender as
demandas do mercado externo, sem atrapalhar nem fazer muitas adaptações em sua
planta fabril.”
“Empresários
devem abrir a mente para novos horizontes comerciais.”
Participar de
feiras, congressos e workshops, mesmo que de forma virtual, integrar missões empresariais
e investir em viagens internacionais podem ser meios de abrir a mente dos
empresários para novos horizontes comerciais. “Para quem está interessado, não
faltam oportunidades e condições de se informar e conhecer as novas
oportunidades.”
Na próxima
terça-feira (15), Degoncir Gonçalves, que também é membro e responsável pela
área de desenvolvimento de negócios da Central Florida Brazilian American
Chamber of Commerce, estará em Londrina para a palestra “Estados Unidos em modo
prático”. O evento, gratuito, acontece às 9 horas, na sede da Acil (Associação
Comercial e Industrial de Londrina), na rua Minas Gerais, 297, 1º andar. A
palestra é voltada a empresários dos mais variados segmentos e, para
participar, basta preencher o formulário disponível no link https://bit.ly/3pzrteH.
Guerra
demanda cautela
Do ponto de
vista macroeconômico, qualquer possibilidade de venda de produto ou serviço no
mercado internacional é bastante positiva para as economias brasileira e
paranaense. No Estado, a indústria madeireira tem apresentado grande
crescimento, impulsionada pelas vendas aos países estrangeiros. Mas a guerra
entre Rússia e Ucrânia, neste momento, impõe cautela aos países fornecedores e
compradores porque a instabilidade geopolítica pode impactar as exportações
neste momento. A avaliação é do economista da Fiep (Federação das Indústrias do
Estado do Paraná), Evânio Felippe. “Se houver a piora dos conflitos, vai
impactar a economia mundial”, disse ele. “Os EUA fecharam (o acumulado de 12
meses até fevereiro) com a inflação mais alta de 40 anos (7,9%). A economia
dificilmente vai sair ilesa.”
Na medida em
que a guerra do Leste Europeu se prolonga, outros países irão aplicar sanções econômicas
que contribuem para aumentar a instabilidade mundial e podem afetar as expectativas
dos empresários. “O conflito tende a diminuir ao apelo e os compradores e
vendedores estão cautelosos”, afirmou Felippe. “O cenário é complexo
porque não conseguimos mensurar, nesse momento, o desdobramento desse
conflito.”
Uma das
consequências das tensões entre Rússia e Ucrânia que já pode ser sentida no
Brasil e em outros países do mundo é a alta dos combustíveis, que afeta toda a
cadeia produtiva e impacta a economia como um todo. “Se olharmos o período da
pandemia para cá, houve um crescimento muito grande da venda de madeira para os
Estados Unidos. Isso é muito positivo e continua sendo. Para os EUA, os
produtos derivados de madeira lideram o total de vendas até o ano passado.
Agora, com a instabilidade, fica mais difícil. A gente tem que analisar que o
preço para produzir qualquer mercadoria está caro”, destacou Felippe.
O economista
lembrou ainda que o câmbio segue tendência de apreciação, o que estimula uma
queda na venda de produtos e serviços no mercado internacional. “Mesmo que
houvesse uma alta de custo na produção, a queda na taxa de câmbio poderia
aumentar as vendas. Agora, com tendência de apreciação. Tudo neste momento está
muito volátil.”
Fonte: Folha de
Londrina / Foto: Sérgio Ranalli