Publicado em: 28/06/2022
Quase quatro
meses após o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, os impactos para a
economia são notórios. Em diferentes níveis, todos os países têm sido afetados
– pelo aumento do preço do petróleo e de alguns alimentos, dificuldade de
acesso a itens ou até pela instabilidade geopolítica. De acordo com um estudo
da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 42% das empresas brasileiras
sentiram consequências negativas, principalmente relacionadas à alta do preço
de insumos e matérias-primas.
Para a
indústria paranaense, apesar de os dois países não estarem entre os principais
parceiros comerciais para exportação – a Rússia figurou como o 19º destino e a
Ucrânia como o 67º em 2021 –, há uma preocupação sobretudo devido aos produtos
russos que o estado importa, que responderam por 2,8% do total e fizeram a
Rússia ficar na 7ª posição entre os parceiros de importação no ano passado.
Como mostra o
levantamento do Observatório
Sistema Fiep sobre
os impactos do conflito para a indústria paranaense, entre as dez principais
mercadorias importadas da Rússia pelo Paraná nesse período, oito foram produtos
químicos, como cloretos de potássio (25,7%) e Diidrogeno-ortofosfato (20,3%).
“A Rússia é um
dos principais fornecedores mundiais de insumos para fertilizantes e, como o
Paraná é muito forte no agronegócio, a falta deles é um risco que ainda não se
concretizou, mas é muito importante o acompanhamento da situação, não só no
estado, mas para todo Brasil”, alerta Marcelo Alves, economista do Sistema Fiep
e responsável pelo levantamento.
Outros impactos
para a economia são: a possibilidade de redução da atividade econômica nos
Estados Unidos e na China, que são os principais parceiros comerciais do Brasil
e do Paraná; e as consequências das sanções impostas a Rússia – um grande polo
de exploração e produção de diversas commodities, como minérios e grãos – que
pode ter a exportação desses bens dificultada e potencializar os danos às
cadeias globais de produção.
O economista
explica que o agronegócio brasileiro, e particularmente o mercado paranaense,
pode ser bastante impactado pela imposição dessas sanções devido à produção de
alimentos, tanto na pauta agrícola quanto na pauta industrial. Isso porque os
insumos para fertilizantes se tornam mais escassos e caros e a rentabilidade
dos produtores brasileiros pode cair.
Contudo, vale
destacar que a guerra começou em um contexto ainda de recuperação da pandemia
em todo o mundo, mas a indústria do Paraná tem apresentado solidez. “De qualquer forma, o Brasil e
em especial o Paraná, apesar dos problemas que também nos afetaram e da
fragilidade econômica do país, mostra na sua estrutura produtiva capacidade de
passar por esse momento sem tantos impactos e ainda com a possibilidade de
auferir novos mercados”, reforça Marcelo Alves.
Os dados
relacionados à empregabilidade reforçam essa visão. De janeiro a abril de 2022,
o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou que a indústria
do Paraná apresentou saldo positivo de mais de 11,8 mil postos de trabalho. Dos
23 setores da indústria de transformação, apenas dois apresentam saldo negativo
nesse período. Pelos dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar do IBGE
(PNAD contínua), o estado apresenta a 4ª menor taxa de desocupação do país
neste ano, com 6,9%. A título de comparação, o resultado nacional é de 11,1%.
Mudanças
de estratégia e novas oportunidades
Com esse
cenário, as indústrias tiveram de mudar a estratégia de aquisição de insumos e
matérias-primas e buscar fornecedores no Brasil. É importante lembrar que
conflitos geopolíticos costumam elevar o nível de incerteza na economia global
e, consequentemente, levam a um aumento da aversão ao risco.
Isso significa
que muitos investidores podem preferir migrar seus ativos para mercados mais
seguros e o brasileiro está nessa lista, que pode ser visto como atrativo por
sua capacidade de se tornar um possível fornecedor substituto para alguns dos
bens, principalmente agrícolas, produzidos pela Rússia e pela Ucrânia. Além
disso, o país pode atrair empresas e investidores que procuram novas alternativas.
Um exemplo de
novas estratégias empregadas vem do setor automotivo, que viu o cenário de
desequilíbrio nas cadeias logísticas globais se agravar com a guerra, uma vez
que já se encontrava consideravelmente afetado pelos impactos da pandemia e,
mais recentemente, pelos lockdowns adotados pelo governo chinês.
A partir do que
explica Max Forte, coordenador do Conselho Setorial Automotivo da
Fiep e presidente
da Brose, a Ucrânia é um importante fornecedor de chicotes elétricos
automotivos e concentra boa parte da produção europeia. Com o conflito, o
fornecimento para grande parte das montadoras na Europa foi afetado e alguns
sistemas e componentes tiveram que ter produção transferida para outros centros
de forma rápida.
“O Brasil e em especial a indústria paranaense já têm nível alto
de nacionalização e conseguiu, em boa medida, administrar essa situação.
Obviamente, essa guerra traz um novo momento de reflexão às grandes cadeias de
fornecimento globais, forçando uma mais profunda e complexa análise de custos e
riscos logísticos e de abastecimento. Não se planejará o fornecimento de novos
componentes como se fazia antes”,
explica Max Forte.
A decisão de
compra se dava pela decisão de onde poderia se comprar mais barato. Agora,
passa a um modelo de “cadeia de fornecimento por segurança geopolítica”, que
fornece mais segurança de fluxo. De olho nas necessidades e também nas
oportunidades, o setor passou a monitorar e gerir de forma mais ampla os riscos
e impactos logísticos, aumentou a gestão de estoques e inventário.
“Neste cenário, vemos um novo ciclo de aumento do processo de nacionalização
de sistemas e componentes, com potencial inclusive de aumento dos negócios de
exportação do Brasil para a região do NAFTA (North American Free Trade
Agreement - Acordo de livre-comércio da América do Norte). Mesmo nos momentos
de extrema dificuldade causados por fatores dramáticos como uma guerra, podemos
ter um pensamento estratégico que garanta um melhor posicionamento de nossa
região”, conta o
gestor da Brose.
A respeito de
ações do poder público, principalmente do Governo Federal, para mitigar os
efeitos do conflito para a economia, há três destaques:
1 - Negociação com novos fornecedores de fertilizantes e
desenvolvimento do Plano Nacional de Fertilizantes: o Ministério da Agricultura
iniciou conversas com o Canadá, o maior produtor mundial de fertilizantes à
base de potássio, para contratar suprimentos adicionais. Além disso, existem
negociações com o Irã com a possibilidade de aumentar o fornecimento de ureia e
houve o anúncio da implementação de um projeto nacional para estimular a
produção de fertilizantes minerais no país;
2 - Redução da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados
(IPI): corte
de até 35% para a maioria dos produtos. Pode ajudar a atenuar o aumento dos
preços dos produtos e ajudar na competitividade da indústria nacional;
3 - Mudança nas regras do Imposto sobre Circulação de Mercadorias
e Prestação de Serviços (ICMS): está
em tramitação no Congresso Nacional uma proposta que limita o ICMS sobre os
combustíveis, definindo uma mesma alíquota para todos os estados.
O
que a indústria deve esperar
Até o momento,
não há um cenário que indique o fim do conflito, muito menos das suas
consequências para a economia. Diante dessa situação, o nível de
previsibilidade fica prejudicado e a aversão ao risco aumenta. O mais recomendável
é que as indústrias invistam em planejamento.
“É muito importante o planejamento dos negócios, com um maior
cuidado com os gastos, as contratações financeiras e os investimentos. Se
necessário, renegociar dívidas e contratos, assim como buscar oportunidades
de crédito.
Também deve-se destacar a relação com os fornecedores, que pode ser fundamental
para a manutenção dos insumos e matérias-primas, assim como estar atento às
necessidades do cliente e às oportunidades do
mercado”, enfatizou
Marcelo Alves.
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Fonte: G1 / Foto: Gelson Bampi