Publicado em: 25/02/2022
A guerra entre a Rússia e a Ucrânia que começou com
uma invasão na manhã desta quarta-feira (24), pode impactar
diretamente a economia dos paranaenses ao causar um
possível impedimento na atividade portuária e no comércio
exterior. Os dois países fornecem soja, milho, trigo e outros insumos
importantes para o Brasil.
De acordo com o professor de economia da Universidade
Federal do Paraná (UFPR), Eugenio Stefanelo, durante os dois dias que
antecederam a invasão, terça-feira (22) e quarta-feira (23), foi
possível notar uma reação das cotações internacionais. A soja aumentou
para US $17 por bucha, o que equivale a R$87,53. Já o milho
ultrapassou os US$6,80 (R$34,98). O trigo também teve um aumento significativo,
chegando a US $9 por bucha (R$46,30).
O economista ainda alerta sobre o aumento de preço de outros
produtos, como o petróleo, que acaba impactando no aumento de
preços de todo o restante da cadeia produtiva. Após a invasão feita pela Rússia
à Ucrânia, a Petrobras pensa em avaliar os impactos da alta
volatilidade dos preços do petróleo no mercado internacional. Todas
essas mudanças refletem diretamente no Paraná.
Impactos
a longo prazo
Outra preocupação é a possível falta de
fertilizantes na próxima safra de verão, que começará a ser
plantada em setembro. No ano passado, o produto já teve seu
valor duplicado.
Segundo Eugênio Stefanelo, no ano passado, o Fundo
Monetário Brasileiro já tinha previsto para 2022 uma redução do
comércio mundial e do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, com relação aos
números do ano passado.
“Com a eclosão dessa convulsão e seus efeitos sobre a
economia global, é possível que nós tenhamos números ainda mais baixos do que a
queda já prevista, na economia mundial e principalmente em termos de Produto
Interno Bruto (PIB) e desempenho do comércio”, lamentou o economista.
Fertilizantes
A administração dos portos paranaenses acompanha o
momento de tensão entre os países do Leste Europeu, com atenção. O
conflito internacional pode gerar apreensão nos principais portos de entrada
dos fertilizantes no Brasil.
De acordo com o diretor-presidente da Portos do Paraná, Luiz
Fernando Garcia, ainda pode ser cedo para saber quais serão os impactos
diretos e indiretos das atividades militares na Ucrânia, porém, existe
uma preocupação, principalmente com o segmento dos granéis de
importação, especialmente dos adubos.
“Para se ter uma ideia, das quase 11,5 milhões de toneladas
importadas de fertilizante no ano passado, cerca de 2,35 milhões (mais de 20%)
vêm da Rússia”, afirma o executivo.
A Ucrânia, segundo Garcia, não é uma região
tradicionalmente produtora de fertilizantes. “A preocupação realmente
é com a Rússia que, com a guerra, tende a suspender as atividades
portuárias e o comércio com os países, principalmente ocidentais”,
pontua o dirigente dos portos paranaenses.
Produtores
Segundo o gerente executivo do Sindicato da Indústria Adubos
e Corretivos Agrícolas no Estado do Paraná (Sindiadubos), Décio Luiz Gomes, a
Rússia e outros países vizinhos, como Belarus, são grandes
produtores de fertilizantes, principalmente o cloreto de potássio.
“A apreensão é quanto os problemas logísticos para
escoar esses produtos. A invasão da Rússia à Ucrânia complica ainda mais a
situação que já estava delicada com a Belarus, outro importante mercado”, comenta.
Conforme Décio Luiz Gomes, o mercado e a indústria dos
fertilizantes no Brasil – assim como em todo o mundo – já
estava sentindo há algum tempo, quando a Rússia decidiu suspender as
exportações dos produtos.
Alternativa
Outra preocupação para o segmento da produção, era o
impedimento imposto pela Lituânia para circulação de produtos da
Belarus. O país pode ser uma outra opção, além da Rússia, para o escoamento da
produção de cloreto de potássio para o mundo.
“Uma alternativa para o mercado brasileiro, na importação do
produto, seria o Canadá, também grande produtor e exportador do cloreto de
potássio”, completa Décio Luiz Gomes.
Como explica Décio, a maioria das empresas
produtoras de fertilizantes nos dois países, Rússia e Belarus, são
estatais. “Ou seja, as decisões dessas empresas vão a reboque do que
decidem os respectivos governos em relação ao mercado internacional”, pontua o
gerente executivo, que ainda ressalta: “A redução da oferta mundial de
fertilizantes certamente vai nos afetar”.
Portos
Os navios com bandeiras da Rússia, Ucrânia e Belarus
dificilmente chegam nos portos do Paraná. O presidente do Sindicato das
Agências de Navegação Marítima do Estado do Paraná (Sindapar), Argyris
Ikonomou, a preocupação não é tanto com a mão-de-obra, no caso, das tripulações
e sim o aumento nos valores do transporte.
“A possibilidade de impacto negativo que eu consigo
enxergar, no momento, seria a dificuldade, alto risco e o aumento do valor dos
fretes para navios que, a partir de agora, vão escalar em portos da Rússia para
carregamento de fertilizantes, por exemplo”, comenta.
Ele ainda alerta que é muito cedo para saber o que pode
acontecer nos próximos dias.
Mercado
de proteínas animais
Gustavo Fanaya, funcionário do Sindicarne do Paraná, informa
que é impossível prever o que a guerra vai causar no mercado de
proteínas animais e de carnes no Estado. “Nós não exportamos suínos
nem para a Rússia e nem para a Ucrânia neste momento”, disse.
“A exportação de frango é mais expressiva. No ano passado,
cerca de US$100 milhões de dólares foram gerados”, informou.
Ele ainda acrescentou que, já na carne bovina, o valor
gerado foi de US$7 milhões de dólares e que não há informações
sobre a interrupção do fluxo dessas mercadorias.
“O que a gente percebe nesse momento é uma
especulação muito grande no mercado internacional de milho,
pois a Rússia e a Ucrânia são grandes exportadores e definidores de preços
dessa obra prima”, conta.
“O grande receio das nossas indústrias é que a matéria
prima, o milho principalmente no Brasil, já está muito cara,
pressionando o custo de produção, tornando nossos produtos muito caros e
comprimindo a margem de todo sistema, de toda a cadeia produtiva. Então esse é
um fator que gera grande preocupação que esses países não deixem de abastecer o
resto do mundo”, diz.
Rússia e
Brasil em números
A Federação das Indústrias do paraná (Fiep) fez um
levantamento prévio de impactos com a guerra. Conforme a entidade, os
principais produtos paranaenses exportados para a Rússia em 2021 foram pedaços
e miudezas
de galos e galinhas (43,3%) e café solúvel (20%). Os 5 principais produtos
paranaenses exportados para a Rússia em 2021 foram alimentos e corresponderam a
91,1% de tudo o que foi exportado para o país. Já nas importações, a Rússia é o
7º maior parceiro paranaense, respondendo por 2,8% das importações em 2021. Os
principais produtos importados da Rússia pelo Paraná em 2021 foram: cloretos de
potássio (25,7%) e diidrogeno-ortofosfato(20,3%) (fertilizantes). Os 4
principais produtos importados da Rússia pelo Paraná em 2021 foram produtos
químicos e corresponderam a 72% de tudo o que foi importado pelo estado.
Fonte: RIC Mais / Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná