Publicado em: 28/02/2022
Nesta última
quinta-feira (24/02), todo o mundo foi impactado pela triste notícia da guerra
entre Rússia e Ucrânia. O que já sabemos é que se trata do maior ataque entre
países europeus desde a Segunda Guerra Mundial. Em conversa com o E-Commerce
Brasil, inclusive, Igor Subow, presidente do comitê de Logística da
Associação Russa de Vendas a Distância, diz que a situação na região realmente
não é agradável. Por conta da guerra, ele já tem ciência de que o mercado de
e-commerce da região passará por problemas enormes esse ano. “Triste saber que acabamos de passar por dois anos de crescimento,
com 40% e 50% respectivamente. Nossa esperança é a de que a guerra termine o
quanto antes”, lamentou.
Que tudo isso já
traz consequências para os povos de lá, não temos dúvidas (e realmente sentimos
muito por isso). Mas, será que poderemos sentir os efeitos desta fatalidade
aqui no Brasil?
Valores do Dólar, petróleo e gás,
por exemplo, já dispararam no mundo em detrimento desta guerra. Bolsas
asiáticas, por exemplo, fecharam em forte baixa, assim como Paris, Londres e
Frankfurt, com quedas acima de 3% ao longo do primeiro dia de conflito. Vale
lembrar que a Rússia possui um dos maiores mercados de petróleo e gás natural —
o barril de petróleo Brent —, que, hoje, já atingiu a maior cotação desde 2014,
com alta de 7,85%. Outros produtos importantes ao Brasil, como trigo e milho,
também são importados da Ucrânia e da Rússia e podem deixar de ser produzidos
por ora. Fertilizantes e insumos agrícolas somam-se à lista de produtos
importados pelo Brasil desta região.
Como o conflito reflete no mercado
global
De acordo com Fernando Moulin,
professor da Escola Superior de E-Commerce e Partner da Sponsorb, os impactos
podem afetar todos os setores do e-commerce, mais especificamente os ligados à
economia globalizada e a taxas cambiais. “Desses, posso destacar em especial
os eletroeletrônicos, linha branca, produtos importados, vinhos, alimentos e
outros”, diz. Além disso, Moulin acredita na possibilidade de
impactos no futuro para os varejistas do e-commerce chinês. “Isso é possível caso os custos de contêiner, de shipping, de todo
o transporte marítimo entre as nações venha a aumentar os custos, que vem
elevando significativamente desde o início da pandemia”, destaca.
Para o especialista, estamos com
barreiras de oferta em escala global, que já afeta diversos países. “O Brasil ainda não sentiu esses efeitos, mas pode acontecer de
impactar marginalmente os e-commerces chineses, como o AliExpress, ou
asiáticos, como a Shopee”. Vale destacar que, para a Rússia, o
impacto será ainda maior. “Certamente muitas empresas do
mundo vão ser proibidas de fazer negócio com empresas russas, o que vai levar
tempo para substituir produtos globais, nacionais e marcas de luxo que são
muito fortes lá”.
Outros entraves para o varejo
brasileiro, segundo Felipe Mendes, Gerente Geral da GfK na América Latina, está
no potencial da Ucrânia em relação à produção de matérias-primas. “A Ucrânia é um país rico em minério, sendo o segundo maior
produtor no mundo de ferro e manganês, por exemplo. Muitos destes produtos são
destinados à indústria, assim como para a tecnologia”. Como
consequência, segundo Mendes, seria um efeito de médio prazo no fornecimento
destes materiais, o que pode afetar a indústria de base. “Na agricultura, são o segundo maior exportador de cevada. Ou
seja, para a indústria da cerveja essa guerra pode trazer grandes
consequências”. Para o setor agrícola, Mendes entende que o impacto
será imediato, enquanto na questão de metais e produção ocorrerá no médio
prazo.
“Existe um outro elemento importante no
leste europeu: muitos dos ucranianos atuam no ramo de transporte de cargas na
Europa. Por conta da guerra, a maioria retornou à Ucrânia para cuidar de suas
famílias. O resultado disso será um desabastecimento nos países europeus”. Apesar de ser em menor escala quando comparado
aos problemas da China ou da Covid-19, Mendes acredita que essa situação
automaticamente levará à uma inflação.
Um dado interessante: a região
dos países do leste europeu (CIS) foi a que teve o crescimento mais rápido do
e-commerce no mundo, seguido de perto pela América Latina. Pedro Trevisan,
Co-founder da Globalfy, acrescenta que a Ucrânia é uma grande fonte de
terceirização de TI para os EUA. “Por conta deste conflito, pode
haver um forte impacto em alguns serviços da área no país, principalmente
quando pensamos em e-commerces, plataformas e marketplaces”,
alertou. Neste conteúdo é
possível compreender como (e por que) a invasão russa à Ucrânia pode ameaçar a
indústria de TI.
Impactos nos produtos agrícolas
No ano passado, por exemplo,
empresas do Rio Grande do Sul comercializaram (entre importações e
exportações) cerca de US$ 921,8 milhões com
os países envolvidos na guerra, de acordo com dados do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Apenas no segmento de
fertilizantes, que representa 15% das importações, mais de US$ 386 milhões
referem-se a produtos químicos de origem russa. De acordo com Oscar Frank,
economista-chefe da CDL Porto Alegre, tais produtos são fundamentais para manter
a produtividade nas lavouras. “O Rio Grande do Sul é o estado
brasileiro que mais depende do setor primário. Portanto, tudo o que ocorre no
agronegócio reflete ainda mais forte na região”.
Ricardo Lerner, executivo do
setor de logística de combustíveis e CEO do Gasola, afirma que “os impactos nas bombas de combustível irão depender de ações
diplomáticas e dos desdobramentos da geopolítica mundial, que deixam o mercado
volátil e as cotações de dólar instáveis”. Para Lerner, essas duas
variáveis irão impactar o cálculo de preço do combustível. Além disso, mudanças
no cenário internacional impactam o mercado nacional, de acordo com o preço de
paridade de importação (PPI) praticado pela Petrobras desde 2016. “Isso significa que a definição dos valores cobrados nas
destilarias de petróleo será a mesma da cotação no mercado internacional, onde
a tendência é de aumentos consideráveis”. No caso do diesel, ele
prevê um aumento inicial de cerca de R$ 0,25 nos próximos dias. “Porém, pode ser apenas o início de uma grande onda de aumento nos
preços”, avalia.
Moda já sofre com os efeitos
Ações de grandes marcas da moda
já sofreram queda por conta da guerra entre Rússia e Ucrânia. No caso das
empresas LVMH e Kering, por exemplo, as ações caíram 5% ao meio-dia de ontem,
enquanto as ações da Compagnie Financière Richemont caíram 7% e as da Hermès
3%. Na manhã de quinta-feira, a Richemont, empresa controladora da Cartier e
Van Cleef & Arpels, foi a mais afetada por consequência da guerra.
Uma das maiores preocupações para
o mercado de moda europeu é a de que a invasão possa desencadear um ‘fator de
culpa’ entre os consumidores de luxo. “Consumidores deste nicho não
se sentem à vontade para serem vistos comprando ou usando produtos de luxo devido
a eventos trágicos”, escreveu Antoine Belge, analista da empresa
francesa de investimentos Exane BNP.
Alternativas para minimizar os impactos
da guerra no e-commerce brasileiro
Apesar de tudo isso, há algumas
alternativas para minimizar as consequências que virão por conta da
guerra. “Trabalhar com produção local, com fornecedores brasileiros, é uma
das saídas. Outra dica é trabalhar com novas alternativas de comércio ligadas a
regiões que tenham custos mais competitivos, como a América Latina, por
exemplo. Porém, é importante lembrar que muitos países da região não conseguem
produzir insumos que são importados da Ásia, China ou Europa”,
reforça Moulin.
Outra saída está em encontrar
formas de transferir essa questão do custo, com equilíbrio, para o próprio
consumidor. “Fazer reajustes pontuais de forma necessária
para preservar as margens, trabalhando mais equilíbrio na questão de logística
de frete, pode ser uma alternativa para minimizar os custos”. Assim
como Moulin, Mendes sugere a alternativa de buscar imediatamente outras fontes,
especialmente na questão de metais e minerais, que têm uma cadeia mais longa.
Por aqui, seguimos com o desejo
de que as coisas melhorem não apenas para os negócios, como (e principalmente)
para a vida e equilíbrio de todos. E, por saber que milhares de russos já
se manifestam contra este conflito, a esperança de uma solução menos dolorosa
se faz presente.
Fonte: E-commerce
Brasil / Foto: Divulgação