Publicado em: 15/02/2022
Engenheiro
elétrico pela PUC de Minas Gerais, Fernando Catta Preta tem mais de duas
décadas de experiência na busca por matérias-primas a bom preço. Até anos atrás
na indústria de metalurgia, tendo atuado na Usiminas. E desde 2016, no ramo da
nutrição animal.
Desde que a
pandemia estourou, como gerente de Procurement da Trouw Nutrition do Brasil,
fábrica de rações instalada em Campinas (SP), ele tem encarado o dia a dia
difícil do setor, ocupado em encontrar saídas para a alta generalizada dos
custos de produção.
“Alguns
insumos, como a ureia, triplicaram de preço nesses dois anos, além dos custos
do transporte rodoviário e no embarque e desembarque nos portos, que passaram a
reduzir os prazos e cobrar mais pelos dias além do chamado free time, que era
de 15 dias e foi para 10 durante a pandemia”, diz ele
Em entrevista à Globo Rural, o executivo fala sobre os impactos da atual crise logística para a indústria de ração, um cenário que, junto com a valorização do dólar em relação ao real, elevou de forma significativa os custos com as matérias-primas do setor. Situação acentuada pela manutenção em patamares elevados de preços de commodities agrícolas, como soja e milho.
Globo Rural: Como a pandemia impactou os custos de produção da indústria de ração instalada no Brasil?
Fernando Catta Preta: Vou falar primeiro do panorama geral para entendermos todo esse cenário. O que aconteceu com o mundo na pandemia? Quando surgiu o problema na China, vimos alguns portos serem fechados, navios em quarentena e a parte do transporte rodoviário deles, até chegar aos portos, também com algumas dificuldades. E aí no início de 2020 começou a surgir a percepção da demanda pelos navios, com o comércio mundial aquecido e ao mesmo tempo os portos fechados na China, aí começaram a surgir os problemas dos atrasos dos navios, navios em quarentena, e veio a elevação dos custos dos contêineres. Aqui na Trouw somos importadores, ou seja, trazemos insumos, matérias-primas, vitaminas, aminoácidos, para a produção das nossas rações. E aí começamos a ter essa explosão dos preços, com uma dificuldade grande de conseguir contêneires, de conseguir navios, em função dessas restrições. E se pegarmos o Brasil, pensando no ciclo de navegação, o Brasil é meio fim de linha.
GR: Como
assim?
FCP: Porque o navio sai da China, vai para a Europa, e da Europa,
quando vem para o lado da América, tende a privilegiar os EUA, pelo comércio, e
aí desce para a América do Sul. Essa, vamos dizer, é a rota principal. E
começamos a ver contêineres a US$ 10 mil, com fretes caríssimos.
GR: E qual
era o preço do contêiner antes da pandemia?
FCP: Para se ter uma ideia, chegamos a pagar pelo contêiner de 20
pés 1,5 mil, 2 mil dólares para trazer da China para cá, ou seja, vimos o frete
subir seis, sete vezes. Ainda nesse cenário, começamos a ver também um maior
número de atrasos dos navios. A gente programava o navio, mas ele não chegava
na hora combinada. Quem dependia dos insumos para começar a produzir, passou a
ter atrasos. E aí veio a percepção de menor confiabilidade no tempo de
transporte dos navios, passaram a cobrar pela demurrage [valor cobrado a mais
pelo tempo de embarque ou desembarque que excede o período combinado no
contrato de uso dos portos], reduzindo o free time. Em geral a gente tinha 15
dias em média de free time, em que não pagávamos a demurrage, mas reduziram
esse prazo para 10 dias e passaram a cobrar. Então o frete estava caro, o
contêiner estava chegando caro, além disso atrasado e, para piorar, uma
cobrança de demurrage porque precisava liberar o quanto antes, já que o mundo
está precisando daquele contêiner de volta. Isso veio encarecendo a cadeia como
um todo. E se a gente for o preço do barril do petróleo, em 12 meses ele subiu
quase 60%, foi de US$ 59 o brent, em fevereiro do ano passado, e na
sexta-feira, 4 de fevereiro, fechou em US$ 92, ou seja, uma alta de 56%. Com
isso vem o aumento dos combustíveis no Brasil, que hoje precifica o diesel pelo
mercado intenacional, os fretes rodoviários caros, tudo isso veio somando o
custo da cadeia, para a gente poder entender porque as coisas subiram, e
subiram tanto, nesses dois anos de pandemia.
GR: E ainda
teve o efeito da alta do dólar, não?
FCP: O câmbio
também foi um fator forte. Em janeiro de 2020, um dólar valia 4,15 reais. No
meio do ano de 2020, em maio, o dólar bateu R$ 5,64, e fechou o ano a R$ 5,14.
Aí começou 2021 a R$ 5,36, na média, veio subindo, e fechou o ano em R$ 5,65,
começando com o dólar ainda bem valorizado, na faixa de R$ 5,30. Então de
janeiro de 2020 a janeiro de 2022, estamos falando em um salto do dólar de R$
4,15 para R$ 5,53. E todas as nossas matérias-primas são hoje dolarizadas, e
evidentemente que surgiu aí um custo cambial aí, que acaba, digamos,
sobretaxando nossas matérias-primas e importações.
GR: Levando
em conta esses dois anos da pandemia, tudo somado, qual foi o aumento do custo
de produção na média?
FCP: Seria preciso
olhar por matéria-prima, mas tivemos insumos que mais que dobraram de preço,
alguns triplicaram de preço nesse período. Daí que é difícil falar em aumento
médio porque cada indústria terá o seu portfólio de matérias-primas. Se
olharmos para o mercado de ruminantes, a ureia, que é usada como fonte de
nitrogênio na nutrição, ela saiu de US$ 200 e foi bater, em novembro passado, em
US$ 900 dólares a tonelada, olha que loucura, preço FOB, ou seja, sem o custo
do transporte.
GR: Nesse
caso da ureia, a alta também teve a ver com a China, que chegou a interromper
as exportações?
FCP: Houve essa
instabilidade do mercado. Se olharmos para o lado da Europa, o custo da energia
lá subiu demais, na Alemanha, existem vários países da Europa que estão
sofrendo muito com o custo da energia. A própria China pegou uma parada dura
lá, se falava num black out energético da indústria, com algumas delas sendo
obrigadas a reduzir a produção. Por isso tivemos menos matéria-prima vindo da
China, com a demanda aqui continuando.
GR: E como
está a expectativa em termos de oferta de soja e milho no mercado interno?
FCP: Estamos em um
momento de La Niña, com mais escassez de chuva aqui no Sul e muita chuva do
lado do Nordeste, mas a nossa safrinha está concentrada do Centro-Oeste e
Sudeste para baixo, não existe safrinha na região Norte. Lá é uma safra só. E a
safrinha é a grande safra do Brasil. Viemos de um 2020/2021 com a produção de
milho na casa de 87 milhões de toneladas, e a soja na casa de 137 milhões.
Agora, para 2021/2022, a safra do milho tem uma expectativa até boa de
produção, com 113 milhões de toneladas, com 25 milhões na safra de Verão e o
milho de segunda safra perto de 86 milhões de toneladas. Mas vamos olhar como
fica o balanço, olhando o estoque inicial, produção, importações e exportações
de grãos, e quanto teremos no final. O Brasil tinha um estoque inicial, em
janeiro, perto de 8,8 milhões de toneladas de milho, ou seja, 17% a menos que
em janeiro de 21. Vamos produzir 30% a mais, só que a perspectiva é importar
59% menos milho. Resumindo, vamos ter 123 milhões neste ano, contra 113 milhões
no ano passado. Vamos consumir, interno e exportação, já que passamos a ser
exportadores de milho para a China, de 72 milhões para 76 milhões no mercado
interno, mais 7%. Vamos exportador bem mais, de 20 milhões para 36 milhões de
toneladas, com 82% de crescimento. E vamos sair com um estoque de 9,5 milhões
de toneladas, ante 8,8 milhões no ano passado, que foi um estoque ruim. Já
tivemos estoques maiores nas safras anteriores, então pioramos o nosso estoque.
GR: E qual a
expectativa das cotações para os próximos meses?
FCP: Nas próximos
semanas devemos uma certa calmaria no mercado de milho, com a entrada da
produção do Sul e Sudeste, o que vai aumentar a oferta de milho, acalmando no
curto prazo. Mas não vejo espaço para o milho despencar. Até abril o milho não
cai de preço, ele vai manter o mercado firme, aí começa a safrinha, com o clima
parece normalizando, deve vir uma safrinha boa, ou seja, vai ser um bom ano.
GR: E no
caso da soja?
FCP: Alguns
analistas começaram a reduzir a safra de 22. Em 21, foram 138 milhões de toneladas
de soja, começando 21 com 2,9 milhões de toneladas, mas em 22 começamos com
mais de 6 milhões. A expectativa eram 144 milhões neste ano, mas já caiu. No
caso do farelo, vamos ter uma produção boa, de 1,9 milhão de tonelada, quase
30% acima do ano anterior, com perspectiva de aumentar em 25% o estoque de
passagem. O preço médio bateu R$ 2,5 mil a tonelada FOB. E na média o preço
caiu no último ano, de janeiro de 21 para cá. No Paraná, chegou a cair 16%.
Como a soja veio já veio meio valorizada, tivemos essa queda do preço do farelo
no ano passado. Mas de janeiro de 2020 a janeiro de 2022, na média, temos o
farelo passando de R$ 1.870 para um farelo agora de R$ 2,5 mil, com uma alta de
quase 30% no período.
Fonte: Globo
Rural