Publicado em: 18/08/2022
Os sucessivos aumentos no preço
do diesel e a alta da inflação, que encarece todos os demais custos do frete,
têm levado cada vez mais caminhoneiros a esticar a jornada de trabalho para
tentar aumentar a renda. Isso multiplicou o perigo nas estradas federais
brasileiras, segundo se percebe pelas autuações por descumprimento da Lei do
Descanso, que triplicaram no primeiro semestre deste ano. Estatísticas da PRF,
fornecidas a pedido da Associação Mineira de Medicina do Tráfego (Ammetra),
revelam que as autuações por excesso de jornada aumentaram 218% no primeiro
semestre deste ano. Em 2022 foram 50.467 autuações, contra 15.825 de janeiro a
junho de 2021.
A Lei do Descanso determina que o
motorista pare de dirigir por 30 minutos a cada seis horas de trabalho. É
proibido passar mais de cinco horas e meia ao volante sem interrupção. No caso
do transporte de passageiros esse limite é reduzido para quatro horas. A lei
também obriga que os motoristas tenham intervalos de 11 horas ininterruptas
entre um dia e outro de trabalho.
Pesquisa da Confederação Nacional
dos Transportes (CNT) revelou que há caminhoneiros que passam até 13 horas por
dia ao volante. Isso representa um grande risco a todos os usuários das
estradas.
Conforme o diretor científico da
Ammetra, Alysson Coimbra, o aumento deste tipo de infração está diretamente
ligado a questões econômicas.
“Em dois anos o diesel acumulou
alta de quase 90%, em média. Sabemos que o gasto com combustível corresponde a
até 35% dos custos com o transporte rodoviário de cargas no Brasil. Para
conseguir um rendimento mínimo, os caminhoneiros estão tendo que trabalhar
muito mais. E isso impacta não só a saúde da categoria, mas coloca em risco a
integridade física de todos os demais usuários das vias que circulam”, comenta.
Coimbra lembra que o alto custo
de manutenção dos caminhões também contribui para que os motoristas
desrespeitem a Lei do Descanso. ”Os pneus são um dos insumos que mais oneram os
motoristas, distribuídos entre os eixos dianteiro, truck e tração, possuem um
rendimento de rodagem de 7.721km rodados, em média. Considerando que algumas
composições como bitrem de 7 eixos, o custo total de substituição dos 26 pneus
pode ultrapassar R$ 30 mil. Nesse sentido, o custo de manutenção desses
veículos é altíssimo. Se adicionarmos a inflação a essa equação, veremos que o
valor do auxílio caminhoneiro concedido pelo governo federal, somente até o mês
de dezembro, está longe de representar um alívio para o problema do custeio dos
insumos e do combustível. Para reduzirmos as ocorrências de trânsito na
categoria, precisamos de políticas públicas intersetoriais que estão
diametralmente opostas às praticadas atualmente”, afirma.
Impacto na saúde e no trânsito
Esse excesso de jornada também
cobra um alto preço: o corpo não resiste ao excesso de trabalho e a saúde
inevitavelmente é afetada. O estresse, falta de descanso, assim como
sedentarismo, solidão, os longos períodos sentados, e a alimentação irregular
aumentam o risco de várias doenças fatais.
“O uso de estimulantes bem como
substâncias psicoativas para evitar o sono, comprometem sentidos cruciais para
uma direção segura. Além disso, causam dependência e elevação contínua da dose
para se obter efeitos cada vez menores. Ou seja, falhas humanas causam 90% dos
sinistros de trânsito. E os acidentes envolvendo veículos pesados são
potencialmente mais letais que os que envolvem apenas carros de passeio”,
afirma o especialista em Medicina do Tráfego.
De acordo com Coimbra, a situação
é extremamente preocupante. Ainda mais com a recente aprovação de uma Medida
Provisória do governo que, dentre outras deliberações, suspenderá a
fiscalização de jornadas em alguns trechos de rodovias. “O Sistema Nacional de
Trânsito está exaurido devido às inúmeras intervenções político-eleitorais que
enfrentou. Está na hora, por exemplo, de parar de jogar para a plateia e
trabalhar com responsabilidade pela preservação do bem mais precioso que
possuímos: nossas vidas”, completa o diretor da Ammetra.
Fonte: Portal do Trânsito / Foto: Pixabay.com