Publicado em: 22/03/2022
O setor de
transporte rodoviário de cargas do Brasil possui relevante representatividade
nas atividades econômicas do país. Segundo divulgação deste mês do Produto
Interno Bruto (PIB), os dois principais destaques do crescimento econômico de
2021 foram o setor de transporte, armazenagem e correio — crescimento de 11,4%
— e a atividade de informação e comunicação (12,3%), em especial, pela
ampliação ao acesso à internet e desenvolvimento de sistemas.
Mas como esse crescimento, em
especial do setor de transporte de cargas, pode impulsionar a logística
brasileira a buscar formas de estar em linha com os objetivos da agenda ESG
(ambiental, social e de governança, em inglês), já que esse é um movimento que
precisa estar presente em todas as esferas da economia e da sociedade?
Dentro de um plano de ESG
corporativo, há uma série de expectativas que são criadas: compromissos
públicos construídos com consultas aos stakeholders, metodologia para
implementação, acompanhamento e divulgação de resultados, relatório de sustentabilidade
com resultados nas esferas econômica, ambiental, social e de governança.
Mas é preciso que estejam
claros os benefícios de curto, médio e longo prazo que as estratégias ESG
trarão ao negócio, e a alta direção precisa estar comprometida com o tema e
viabilizar a inclusão dessa agenda na gestão cotidiana do negócio.
Uma das frentes que um plano
ESG corporativo pode abordar é o relatório de emissões utilizando a metodologia
do Programa GHG Protocol que permite inventariar as emissões de carbono equivalente
em três escopos do negócio: escopo 1 — emissões diretas da operação da
organização, escopo 2 — emissões indiretas da organização provenientes da
energia elétrica adquirida para uso na própria organização e, escopo 3 —
emissões indiretas (não incluídas no escopo 2) que ocorrem na cadeia de valor
da organização.
O fato das emissões tipo 3
refletirem emissões da cadeia de valor onde as organizações podem não ter
controle direto e ter baixa influência, geram desafios para inventariar,
acessar dados e, por sua vez, fomentar a economia de baixo carbono. E é nesse
ponto que a contribuição da operação logística pode acontecer nos transportes
de cargas das fases de upstream e downstream.
O conceito de perspectiva de
ciclo de vida do produto ou serviço deve ser considerado. Ou seja, é importante
levar em conta todas as etapas da cadeia produtiva, passando por todos os elos
à montante — extração, produção de matérias-primas, transportes,
beneficiamentos — e à jusante — distribuição, consumo, fim de vida — dos
produtos ou serviços do negócio.
Sabemos que já existem
diversas oportunidades e tecnologias que avançam em prol da descarbonização no
setor de transporte rodoviário de cargas, como a inserção do biometano e o
biodiesel, ações de eletrificação (renovável) de frotas para redução de pegada
de carbono na operação, uso de hidrogênio verde, entre outras.
Acontece que a implementação e habilitação de tecnologias verdes enfrentam
uma barreira tecnológica e mercadológica, além do ganho de escala do uso de
novas tecnologias. Haverá necessidade de substituição de frotas,
disponibilização de infraestruturas específicas, incentivos, políticas
públicas, pensar em descomissionamento tecnológico etc. E aí, questiono: o que
já dá para fazer, para otimizar operações logísticas e contribuir para a
descarbonização do setor?
A resposta de mais curto prazo que enxergo é a
digitalização e o uso de bigdata para apoiar estratégias. Utilizando a lógica do Lean
Manufacturing, do sistema Toyota de produção, podem-se identificar oportunidades
para redução de desperdício e converter as atividades não agregadoras de valor
em atividades agregadoras no setor.
O uso de informações, a
geração de conhecimento e a construção de estratégias utilizando bigdata de
operações logísticas rodoviárias em todo país farão a diferença para o
cumprimento das metas corporativas de neutralização ou redução de emissão de CO? equivalente.
Há uma série de oportunidades
que a digitalização pode oferecer para reduzir a intensidade dessas emissões e
aumentar a eficiência de operações logísticas, tais como:
- Redução de deslocamento de veículos
transportadores sem cargas/vazios (não agregação de valor): a quantidade de emissão de CO? por unidade de carga transportada será
menor.
- Melhoria de médias de consumo de combustível: utilizar-se de dados de médias
ideais por trechos permite que programas de educação e orientação de condução
possam ser direcionadas para redução de consumo de combustíveis (L/km) e
consequente redução de emissão de CO?
eq.
- Deslocamento em rotas otimizadas por
algoritmos: o uso
de inteligência e roteirizadores permitem aumentar a eficiência de operação, e
entregar mais valor (e cargas) com menos carbono emitido.
- Otimização em processos operacionais de
carregamentos/descarregamentos e inclusão de multimodais: O uso de tecnologias que
modernizem o sistema e a gestão de transportes (TMS), que promovam a gestão e
automação de terminais (TOS) e que controlem e gerenciem armazéns (WMS)
proporcionam a redução de desperdícios, a otimização de operações, redução do
custo logístico e tempo de espera em filas, que, no final do dia, se traduzem
também em emissão de carbono evitada.
Os desafios consistem em
mapear os dados setoriais e desperdícios operacionais, convertê-los em emissão
de carbono evitada, criar e implementar as estratégias, e comunicar players e a
cadeia de valor da operação logística.
E você, enxerga mais alguma
estratégia de curto prazo que a digitalização pode trazer para descarbonizar a
logística rodoviária e aumentar a eficiência de operações?
Fonte: Exame. /
Foto: Getty Images/Driendl Group