Publicado em: 13/06/2023
Com o impulso da safra agrícola, a atividade econômica tende a crescer acima de 5% nas
regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil em 2023, projeta a consultoria MB
Associados.
Assim, a dupla deve se descolar das regiões mais dependentes
dos setores urbanos, como é o caso do Sudeste. Nesses locais, a previsão é de
um desempenho inferior com o aperto dos juros altos sobre o consumo, segundo a consultoria.
"É como se tivéssemos dois Brasis", afirma o
economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, responsável pelas projeções.
"Um é o Brasil das commodities, que vão bem, e o outro
está sentindo mais o efeito dos juros", completa.
No acumulado de 2023, a atividade econômica tende a crescer
5,98% no Sul e 5,08% no Centro-Oeste, conforme a MB. O avanço deve ficar em
2,86% no Norte, em 1,46% no Nordeste e em 1,18% no Sudeste.
As previsões são baseadas nos dados de atividade econômica divulgados pelo BC
(Banco Central). A
autoridade monetária publica o IBCR, com recortes regionais, e o IBC-Br, com
abrangência nacional.
Os indicadores sinalizam tendências para o PIB (Produto Interno Bruto), calculado pelo IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística).
Segundo Vale, os dados das Contas Nacionais do instituto, que
mostram o comportamento do PIB, também são observados para a análise do cenário.
Sul e Centro-Oeste à frente com estímulo do agro
Projeções para o crescimento da atividade econômica no
acumulado de 2023, em %

Conforme o IBGE, o PIB brasileiro cresceu 1,9% no
primeiro trimestre de 2023, período mais recente com informações disponíveis.
O impulso veio da alta de 21,6% da
agropecuária, a
maior desde 1996, enquanto o setor de serviços
avançou 0,6%, e a indústria recuou 0,1%. O resultado do campo está associado
às projeções de safra recorde em 2023.
No caso do Sul, Vale pondera que a alta de 5,98% prevista
para a atividade econômica neste ano vem após um desempenho mais fraco em 2022
(1,09%). À época, a produção agropecuária da região foi prejudicada por uma seca de grandes
proporções.
Também houve estiagem em
2023, mas a falta de
chuva ficou mais restrita a áreas do Rio Grande do Sul.
"A seca foi mais extensa no ano passado e ficou mais
concentrada neste ano", afirma Vale.
No Centro-Oeste, a previsão de crescimento de 5,08% em 2023
surge após um avanço até mais forte da atividade econômica em 2022 (5,83%).
Neste ano, diz Vale, é a produção em quantidade maior que
tende a estimular a agropecuária local. Nos anos anteriores, houve impulso do
câmbio e dos preços mais altos das commodities, segundo ele.
"Os preços e o câmbio foram muito relevantes para
aumentar a renda. Agora, o impacto é do volume de produção", afirma.
A MB espera uma desaceleração tanto para o Sudeste quanto
para o Nordeste em meio ao cenário de juros altos, que afetam segmentos como o
comércio e a indústria.
No Sudeste, a previsão de alta de 1,18% em 2023 vem após
crescimento de 3,45% em 2022. No Nordeste, a projeção indica avanço de 1,46%
neste ano, depois da elevação de 3,84% no ano passado.
O Norte, por sua vez, deve ficar no meio do ranking das
regiões. A MB espera que a atividade econômica local suba 2,86% após alta de
2,2% em 2022.
O desempenho do setor extrativo e o peso da agropecuária em
parte da região tendem a compensar o efeito dos juros altos sobre consumo e
investimentos. "É uma região mais difusa", aponta Vale.
SAFRA DEVE IMPACTAR
INFLAÇÃO DE ALIMENTOS
A MB ainda afirma que a previsão de safra recorde deve gerar
alívio para os preços dos alimentos em 2023. A carestia da comida vinha sendo uma das
vilãs da inflação para os brasileiros.
Por ora, a consultoria estima que a alimentação no domicílio
suba 3,2% no acumulado de 2023 no IPCA (Índice Nacional
de Preços ao Consumidor Amplo), que é divulgado pelo IBGE. O viés da estimativa da MB é de
baixa.
Ou seja, o avanço pode ficar ainda menor, e até uma deflação
(queda dos preços) não é descartada. A alimentação no domicílio fechou o ano de
2022 com alta acumulada de 13,23%.
"Talvez a gente esteja caminhando para o cenário de 2017", diz Vale.
Naquele ano, o crescimento da safra contribuiu para jogar a
inflação dos alimentos para baixo, de acordo com o economista. Houve deflação de 4,85% à época.

Fonte: Folha S. Paulo/ Foto: Adriano Machado -
9.fev.2023/Reuter