Publicado em: 27/12/2022
Os contratos de concessão das rodovias do Anel de Integração
do Paraná terminaram em novembro de 2021 e, com a eleição de Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) para a presidência da República, o modelo construído na gestão de
Jair Bolsonaro (PL) ao longo do último ano deve seguir paralisado até que o
governo federal decida o que fazer a respeito.
Sem as concessionárias, a manutenção e reparos nas rodovias
do Paraná têm sido feitos por meio de contratos temporários firmados entre o
Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR), órgão do governo
estadual, e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit),
ligado ao governo federal, com prestadores de serviços. Mas a agilidade na
prestação do serviço não é a mesma da época das rodovias pedagiadas, reclamam
representantes do setor de transportes.
Um exemplo é o que acontece na BR-277, rodovia que corta o
Paraná de Paranaguá a Foz do Iguaçu. Na altura da Serra do Mar, no quilômetro
42 da estrada, próximo a Morretes, houve um deslizamento no dia 14 de outubro.
A ocorrência interrompeu parcialmente o tráfego, que segue assim até hoje,
prejudicando caminhoneiros e turistas que passam pelo trecho, com tráfego em
meia pista.
Foi só depois de passado mais de um mês do incidente, em 17
de novembro, que o Dnit informou que uma tela metálica seria instalada no local
para prevenir novos deslizamentos. Na ocasião, o órgão esclareceu que o serviço
seria feito por empresa especializada, contratada em caráter de emergência (com
dispensa de licitação). Para tanto, seriam realizadas cotações de preços.
Em nota emitida na primeira quinzena de dezembro, o Dnit
informava que a primeira etapa de obras no trecho seria concluída dia 22 de
dezembro, com liberação do tráfego em meia pista tanto no sentido Litoral
quanto no sentido Curitiba. O texto também informava que, "no período de
Natal e Ano Novo as obras serão suspensas até o início de janeiro/2023. Após a
conclusão, em janeiro/2023, da parte inferior das telas, as duas faixas da
pista esquerda (de descida) devem ser liberadas".
O DER-PR, por sua vez, informou em texto distribuído à
imprensa no último dia 22 de dezembro que havia iniciado os trabalhos de
recuperação da encosta da BR-277 nos quilômetros 39 e 41 após assinatura de um
termo de compromisso com o Dnit. "O órgão federal, responsável pela
rodovia, não possui os recursos necessários e aceitou apoio do DER/PR para
executar as obras e resolver a situação", afirma o texto.
"No primeiro dia já foram realizados os serviços de
limpeza da pista, que ainda estava com lama, além da limpeza e recomposição dos
dispositivos de drenagem nos dois locais, garantindo o escoamento de água da
chuva. Nova sinalização e dispositivos de segurança foram instalados na
rodovia, como as novas barreiras de concreto New Jersey que ajudaram a
preservar as pistas nesta madrugada", complementa a nota.
Discrepância
entre os serviços públicos prestados ao usuário
“Há uma grande discrepância entre as vias que são concedidas
e as outras que estão sob a responsabilidade do poder público em relação aos
serviços prestados aos usuários”, observa Moisés Cona, diretor executivo do GRI
Infra – grupo que reúne investidores, financiadores, gestores, concessionárias
e operadoras de infraestrutura.
Cona destaca que os contratos de concessão são regulados,
têm parâmetros de performance e têm que prestar contas ao poder concedente. São
muito mais ágeis nos serviços que prestam ao usuário porque não dependem da
burocracia comum nos órgãos públicos. “As concessionárias precisam prestar
socorro mecânico, com guincho, precisam prestar atendimento pré-hospitalar,
além de todo o serviço de manutenção e conservação periódica das vias que
previnem acidentes”, observa. Ele destaca a infraestrutura física e de dados
muito mais eficiente e ágil, disponível 24 horas ao usuário. “Numa via não
concedida, o usuário fica dependente da administração pública, que não tem a
mesma agilidade”, compara.
Fetranspar
quer intervenção do governo do Paraná na BR-277
O presidente da Federação das Empresas de Transporte de
Cargas do Paraná (Fetranspar), Sérgio Malucelli, defende a intervenção do
governo do Paraná na BR-277. “O Dnit está falido. Embora seja uma rodovia
federal, sem concessão, o governo do Paraná tem que olhar para essa
situação porque a interdição impacta diretamente no Porto de Paranaguá e o
porto é responsabilidade do Estado”, pontua Malucelli. O DER-PR assumiu
recentemente a responsabilidade pelas obras de contenção nos trechos atingidos
por deslizamentos.
De acordo com levantamento da Fetranspar, a interdição na
BR-277 está elevado em cerca de 20% o custo do transporte por conta do maior
tempo de viagem, com o atraso na entrega das mercadorias, de mais diárias que
têm que ser pagas para os caminhoneiros, por mais demanda de combustível e pelo
desgaste dos caminhões. “O movimento de arrancar e frear [mais frequente por
conta do bloqueio parcial da pista] desgasta os caminhões e aumenta o risco de
acidentes”, observa.
Malucelli compara a situação da BR-277 com a BR-376, onde
ocorreu um deslizamento de proporções maiores em final de novembro. “A situação
da BR-376 foi resolvida em 12 dias, ao contrário da 277 e da Estrada da
Graciosa, que estão há mais de dois meses sem solução”, destaca. “Essa é a
diferença entre ter uma estrada pedagiada, concedida à iniciativa privada e
outras sob a responsabilidade do poder público”, compara Malucelli. O trânsito
na Estrada da Graciosa, também afetada pelas fortes chuvas do período, foi
liberado parcialmente dia 19 de dezembro.
Na Estrada da Graciosa também houve deslizamentos de terra e
o tráfego segue parcialmente interditado desde meados de outubro. “A Graciosa é
uma estrada centenária, tombada, por onde os caminhões não podem trafegar, mas
a interdição penaliza os pequenos comerciantes que ali trabalham atendendo os
turistas na descida da Serra do Mar”, observa. No caso da Graciosa, a
responsabilidade pelos reparos é do governo do Paraná, por meio do Departamento
de Estradas de Rodagem (DER-PR).
O presidente da Fetranspar prevê que a situação nas estradas
do Paraná, especialmente as que fazem a conexão com o Litoral, pode se agravar
muito com as festas de fim de ano e o período de férias, quando aumenta muito o
fluxo de veículos.
De acordo com o presidente da Fetranspar, não são apenas as
estradas que ligam Curitiba ao Litoral do Estado que estão em situação
precária. “O Anel de Integração todo está ruim, desde o asfalto, em péssimo
estado de conservação, como as sinalizações danificadas e as praças de pedágio
destruídas. Todas essas estruturas são do povo paranaense e foram abandonadas.
Tudo isso terá que ser recuperado e vai acabar impactando nas tarifas de
pedágio porque as próximas concessionárias vão querer cobrar mais para fazer os
reparos”, adverte.
Ele cita também dados nacionais. De acordo com levantamento
feito pela Confederação Nacional de Transportes (CNT), 55% das estradas do
Brasil estão em situação precária, o que eleva o custo do transporte de carga
em 32% em média. Para o presidente da Fetranspar, toda essa situação reforça a
necessidade de se delegar a gestão das estradas à iniciativa privada, como
forma de garantir a qualidade das rodovias e a segurança dos usuários.
Ratinho
ameaça tirar rodovias estaduais do plano de concessão
Enquanto o setor de transportes reclama da manutenção das
rodovias federais que cortam o estado, o governador do Paraná, Carlos Massa
Ratinho Junior (PSD), afirmou que o estado pode retirar as rodovias estaduais
do plano de concessão do Anel de Integração caso o governo federal adote o
modelo que ele chama de "pedágio caipira", que prevê apenas serviços
de manutenção das rodovias a tarifas mais baixas que as cobradas pelas
concessionárias.
"Essa conversa do pedágio caipira que se fala, que é o
pedágio só de manutenção, o Paraná não vai ser enganado de novo, como foi
durante 30 anos. Nós queremos obra, nós temos que ter Foz do Iguaçu a Curitiba
duplicado, Guaíra a Curitiba duplicado, temos que ter Jacarezinho a Curitiba
duplicado. Essa questão de vir nos empurrar um pedágio só de manutenção, pintar
a faixa, cortar mato e tapar buraco, não serve. Então nós estamos abertos ao
diálogo. Nós queremos, obviamente, achar a melhor solução, mas obviamente com
algo que avance o Estado do Paraná com obras importantes, e não pode ficar
pintando apenas o asfalto", afirmou o governador durante a cerimônia de
diplomação dos eleitos em 2022.
Fonte: Gazeta do Povo / Foto: Divulgação/DER-PR