Publicado em: 28/07/2022
Pesquisas
voltadas ao setor de transporte rodoviário de carga produzidas entre 2015 e
2020 não se preocuparam com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). É o que aponta o artigo
"Road freight transport literature and the achievements of the sustainable
development goals – a systematic review”, publicado na revista acadêmica
Sustainability e realizado no âmbito de projeto desenvolvido no Centro de
Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa.
O RCGI é um
Centro de Pesquisa em Engenharia constituído com apoio da FAPESP e da Shell e
sede na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).
Os ODS foram
propostos em 2015, durante a Cúpula de Desenvolvimento Sustentável da ONU,
realizada em Nova York, nos Estados Unidos. A ideia é que o conjunto de 17
objetivos voltados para a proteção do planeta seja implementado até 2030 por
todos os países que integram a ONU, inclusive o Brasil. Entre as metas estão
trabalho digno e crescimento econômico (ODS 8), consumo e produção responsáveis
(ODS 12), além de infraestrutura resiliente, indústria inclusiva e sustentável
e fomento à inovação (ODS 9).
“Nosso foco foi
investigar se a bibliografia voltada para esse setor, que demanda muitos
recursos naturais e emite poluentes, estava atenta aos objetivos do
desenvolvimento sustentável. Se os países quiserem de fato atingir essas metas
em 2030, a literatura especializada precisaria estar falando dessa temática
para contribuir, por exemplo, com a implantação de políticas públicas”, diz
Flávia Mendes de Almeida Collaço, principal autora do artigo e pós-doutoranda
do Instituto de Estudos Avançados da USP, em entrevista para a Acadêmica
Agência de Comunicação.
Os
pesquisadores utilizaram dois grandes bancos de dados internacionais voltados à
comunidade acadêmica: Scopus e Web of Science. “Em uma primeira busca,
percebemos que nenhum texto do período contemplado por nossa pesquisa fazia
referência direta ao termo ‘ODS’”, relata Collaço.
A pesquisadora
admite que essa ausência talvez se deva exatamente ao recorte temporal do
estudo. “Dificilmente o termo apareceria em artigos publicados em 2015, quando
os ODS foram estabelecidos. Entretanto, ele poderia estar presente em artigos
publicados a partir de 2017”, pontua. “Porém, isso não acontece nem mesmo em
trabalhos que saíram em 2020. É difícil acreditar que as metas serão cumpridas
em 2030 se a literatura científica não estiver falando a respeito dessa
temática.”
Em função da
ausência dos termos nos artigos disponíveis nos dois bancos de dados, os
pesquisadores resolveram dividir as 140 metas dos 17 ODS em duas categorias:
‘ideais’ e ‘instrumentos’. “O ODS 7, por exemplo, é aquele que busca garantir o
acesso à energia limpa de forma universal, confiável e a preços acessíveis. No
trabalho, essa premissa virou um ‘ideal’, que foi então dividido em algumas
palavras-chaves. O mesmo procedimento foi realizado em relação ao quesito
‘instrumentos’, que busca mostrar de que forma esses ‘ideais’ poderiam ser
utilizados”, conta Thiago Brito, pós-doutorando na área de energia na Escola de
Artes, Ciências e Humanidades da USP e coautor do artigo, também em entrevista
para a Acadêmica Agência de Comunicação.
Por meio dessa
série de palavras-chaves elencadas pelos pesquisadores, uma linguagem de
programação identificou inicialmente 1.540 artigos. Depois, com uma nova leva
de filtros, esse número caiu para 301 textos. “Na sequência, nossa equipe leu
esses 301 trabalhos. Foi uma medida crucial porque a linguagem de programação é
capaz de identificar artigos através das palavras-chaves, mas não consegue
apontar se a palavra ‘energia’, por exemplo, que aparece em determinado texto
tem a ver com os ODS”, prossegue Collaço.
Por fim, os
pesquisadores chegaram ao número final de 86 artigos, que foram então
escrutinados e renderam uma revisão sistemática da bibliografia internacional
voltada às questões investigadas pelo estudo. Dentre os textos analisados,
todos apresentaram alguma relação com o ODS 7, aquele que trata do acesso à
energia limpa.
“A maioria dos
trabalhos [56 deles] faz uma análise econômica da mudança de combustível no
setor de transporte de carga, em geral de origem fóssil para fontes
renováveis”, diz a pesquisadora. “Entretanto, esses artigos não fazem conexões
com outros ODS, como o 12, por exemplo, que versa sobre produção e consumo
responsáveis. Um dos instrumentos desse quesito, inclusive, fala de políticas
de subsídio para racionalizar o uso de combustíveis ineficientes ou fósseis.
Trata-se de uma questão importante nesse debate e que mereceria ser
abordada.”
Fonte: Agência
Fapesp / Foto: BR
101/Wikimedia Commons