Publicado em: 21/02/2022
A MSC, líder no mercado de frete
marítimo internacional, anunciou a suspensão por tempo indeterminado de suas
operações de estufagem de contêineres e transporte terrestre no Brasil. A
decisão foi tomada em meio a um cenário de custos de frete em patamares
recordes e dificuldades para obter escalas de embarque e contêineres para
exportação. Desde o início deste ano, os exportadores brasileiros estão
preocupados com o problema, que já vinha prejudicando o embarque e desembarque de
bens e mercadorias nos portos brasileiros.
Em comunicado
enviado a clientes, ao qual Globo Rural teve acesso, datado de
14 de janeiro, a empresa informa que a decisão tem efeito imediato. E relaciona
a medida a questões relacionadas à segurança nas operações portuárias.
"A ação de
criminosos que interceptam o transporte de contêineres para promover o comércio
ilícito de drogas, vitimando, entre tantos, a nós, nossos clientes, e aos
nossos parceiros, tem se mostrado uma grande ameaça às nossas atividades",
diz a empresa, no comunicado enviado a clientes.
A medida da
empresa se estende a outros países da América do Sul. A Globo Rural entrou
em contato com a MSC para entender as razões que levaram a companhia a tomar a
decisão de suspender as operações em terra, mas a empresa não se pronunciou.
A decisão, no entanto, trouxe
preocupação e mais incerteza entre representantes do setor logístico e de
comércio exterior. “Ninguém estava preparado para essa medida e não sabemos se
houve entendimentos prévios com relação aos órgãos de segurança, que é a quem
cabe essa parte”, afirma o diretor da Associação de Comércio Exterior do
Brasil, Aluísio Sobreira.
Segundo ele,
trata-se de uma situação “atípica e inesperada, da qual não se tem todas as
informações”. “É uma decisão que a gente entende que pode a vir impactar os
custos do transporte, dado que é de conhecimento público e geral que o
transporte de contêiner é realizado por poucos players, normalmente grandes
transportadoras”, avalia Sobreira.
O diretor de
Comércio Exterior da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços do Brasil
(Cisbra), Arno Gleisner, também prevê impactos na cadeia logística nacional nos
próximos meses após a suspensão das operações da MSC.
Segundo ele, o
agro tende a ser o setor mais afetado em função da diversidade de produtos
exportados por contêineres – entre eles carnes, frutas, café, açúcar e madeira.
Sem conversa
Cliente da MSC,
a Café Labareda tinha cerca de 15 conteineres programados pra serem embarcados
quando a empresa anunciou a suspensão das suas operações em terra. Além da
correria para encontrar novos fornecedores no serviço de entrega até o porto e
estufagem, o diretor comercial da Café Labareda, Gabriel Lancha Alves Oliveira,
conta que os transtornos gerados pela decisão da MSC peduram até hoje.
"Dos conteineres que já tinham sido enviados pra Santos, nós não estamos
conseguindo receber as documentações. Então esse acesso e essa comunicação que
antes era fácil e ágil travou", afirma o executivo.
A dificuldade
na comunicação preocupa a Café Labareda, que tem enfrentado dificuldades para
receber, entre outros documentos, o "Bill of Land" (ou
"BL"), que comprova que o produto exportado foi entregue no porto. Na
exportação do tipo FOB (Free on Board), a mais comum no setor, o documento é
necessário para comprovar a execução do contrato e solicitar o pagamento pela
carga exportada. "Se eu vou fazer o câmbio com o banco, o banco pede esse
docmento para travar o preço. É um documento que comprova o recebimento",
explica Oliveira.
Nos serviços de
frete marítimos já contratados, e que ainda estão sendo prestados pela MSC, o
diretor comercial da Café Labareda diz que também enfrenta problemas. "Eu
não consigo agendar alguns navios já pré-datados com eles, e ninguém responde.
Quando responde, às vezes, não dá o preço. Quando dá preço, eu vou fechar, não
respondem confirmando agendamento. É um problema grave", reclama o exportador,
ao ressaltar que a empresa já está buscando novos fornecedores para substituir
a MSC em suas operações.
"Era um
serviço que eles prestavam que não era o core business deles, o foco deles é
ter o transatlântico, colocar o navio e fretar até o destino. E hoje eles estão
ganhando muito dinheiro com isso e focaram só nisso", avalia Oliveira.
Contaminação
é problema antigo
O agronegócio
está entre os principais setores atingidos por contaminações de carga, segundo
profissionais que atuam na área de comércio exterior e no controle de
fronteiras. “Temos comércio com 215 países do mundo, e mais de 50% da nossa
carga é de origem agropecuária. Então, naturalmente, vai ser uma carga muito
contaminada. Não que outras cargas não sejam, mas a carga de predileção em
termos de proporcionalidade é a agropecuária”, conta um deles. “Houve um
incremento disso, é perceptível”, afirma.
Segundo o
diretor-executivo da Associação Brasileira dos Terminais Retroportuários e das
Transportadoras de Contêineres (ABTTC), Wagner Souza, a contaminação de
contêineres com drogas é um problema antigo do setor e que já vinha sendo
enfrentado. “Temos percebido que eles [traficantes] vêm aperfeiçoando os métodos
de contaminar contêiner e enviar drogas ao destino final. Então, estamos sempre
correndo atrás para entender que novidades estão sendo implementadas para
aperfeiçoar o controle e ser mais efetivo”, destaca o executivo.
Ações da
Polícia Federal (PF) com apreensões de drogas em contêineres têm sido
recorrentes. Em uma delas, realizada no Paraná, no dia 28 de janeiro, foram
cumpridos oito mandados de prisão temporária e nove mandados de busca e
apreensão em Paranaguá, Matinhos (município no litoral do Estado) e Piraquara,
na região metropolitana de Curitiba.
"Os
investigados são responsáveis por fornecer informações privilegiadas sobre
posições, rotas e cargas dos contêineres para subsidiar organizações criminosas
em ações no Porto de Paranaguá, além de movimentarem os contêineres de forma a
possibilitar a inserção dos carregamentos de cocaína dentro do pátio do
terminal portuário", informou, em nota, a superintendência da (PF) no
Paraná.
Quem contamina
os contêineres não considera, necessariamente, o conteúdo, mas o destino.
Segundo um agente federal que atua no controle de fronteiras, entre as rotas
mais cobiçadas pelos traficantes estão as que vão para os portos europeus de
Antuérpia, na Bélgica, Algeciras, na Espanha, e Roterdã, na Holanda.
“É um problema
que sempre existiu e agora está sendo mais exposto e mais divulgado. O que eu
já ouvi de funcionário dessa e outras empresas é que isso está manchando o nome
deles, prejudicando clientes que não têm nada a ver com a situação”, observa o
agente.
“Hoje, há um
fenômeno que contribui de maneira indireta: a falta de contêineres no mundo. E
a América do Sul participa muito pouco do mercado global de movimentação de
contêineres. A empresa tem como redirecionar o contêiner dela para qualquer
outro canto do mundo e continuar tendo lucratividade com baixo risco. Por isso,
não é uma coisa pontual, tem uma estrutura maior por trás dessa decisão”,
avalia o profissional.
'Recado'
para exportadores brasileiros
Na avaliação do
diretor-executivo da ABTTC, a decisão da MSC pode ser um recado para os
exportadores brasileiros ficarem mais atentos ao contratar serviços logísticos.
“Eu penso que a decisão foi tomada para trazer ao debate, principalmente dos
exportadores, que eles precisam participar mais do processo logístico e
escolher melhor seus prestadores de serviço. Nós acompanhamos e vemos muitos
exportadores que contratam empresas que sequer têm autorização do órgão
aduaneiro para fazer o processo de exportação e isso é um risco tremendo”,
pontua Souza.
Gleisner, da
Cisbra, reconhece que há “elos fracos” na fiscalização e controle das cargas exportadas
pelo Brasil. “Esses elos fracos não são só na Polícia. As próprias empresas têm
que examinar isso com seu pessoal especializado em logística e com seus
parceiros e fazer o trabalho de fiscalização para saber onde estão os pontos
fracos e ajudar para que eles deixem de ser locais em que há introdução de
drogas – seja no depósito, seja no transporte de caminhão”, ressalta o
executivo.
Além das
consequências legais de ter uma carga contaminada com drogas, as empresas
vítimas desse tipo de crime ainda enfrentam os custos milionários relacionados
a tarifas e taxas cobradas pelo operador portuário durante o período em que a
carga fica parada aguardando a perícia policial. “É preciso entender que quando
uma carga dessas é contaminada, muitas vezes o dono perde a carga, o seguro não
quer arcar com as despesas e quem não tem nada a ver com aquilo ali e que é
prejudicado”, afirma um agente de fiscalização, ao classificar como
“ultrapassado” o modelo adotado no Brasil.
“É uma guerra na qual o Brasil não
está concentrando os esforços da maneira que devia para combater. As estruturas
são pequenas, estão defasadas, falta legislação, funcionários, então está aquém
do necessário”, afirma o agente federal. Segundo ele, a contaminação de cargas
é uma situação “corriqueira” nos portos e fronteiras brasileiros. E o país
deveria adotar um modelo de fiscalização centralizado num único órgão,
concentrando uma atuação que hoje é feita de modo compartilhado pela Polícia
Federal, Receita Federal, Fiscalização Agropecuária e até mesmo Ibama.
“Isso tem a ver
com a estrutura dos portos, dos órgãos públicos, com a falta de pessoal. São
quatro a cinco órgãos trabalhando de maneira simultânea quando poderia ser um
órgão só fazendo o controle com uma filosofia de trabalho única, com
organização própria, com carreiras próprias ou que emprestasse funcionários
para esse órgão funcionar. Mas o Brasil está muito atrasado em relação a isso”,
completa o agente.
Procurados, a
Polícia Federal e a Receita Federal não retornaram os pedidos de entrevista
enviados pela reportagem. O Centro Nacional de Navegação Transatlântica
(Centronave), entidade que representa as empresas de navegação, também foi
procurado, mas não se manifestou.
Fonte: Revista Globo Rural