Publicado em: 15/03/2022
Entre o ovo e o primeiro voo, as empresas inovadoras já nascem
superando muitos desafios. As chances de sobrevivência são maiores em meio a um
ecossistema de inovação em que governo, academia, setor produtivo,
investidores, terceiro setor e a sociedade estão integrados. Uma conexão que
vem ganhando força no Paraná, onde 1.956 empresas inovadoras geram milhares de
empregos em 108 cidades, segundo números do Mapeamento das Startups Paranaenses
2022, do Sebrae/PR.
Curitiba é a cidade com mais empresas inovadoras no Estado, mas
quase dois terços do total não estão na Capital ou próximas a ela. Com 252
startups, Londrina, na região Norte, fica em segundo lugar no mapeamento e na
cidade uma ideia pode ser incubada para crescer até se tornar um produto ou
serviço pronto para o mercado. E esse movimento teve apoio do Governo do
Estado.
A Incubadora Internacional de Empresas de Base Tecnológica
(Intuel), vinculada à Agência de Inovação Tecnológica (Aintec), da Universidade
Estadual de Londrina (UEL), é um ponto em comum nas trajetórias bem-sucedidas
de duas ideias inovadoras que se tornaram empresas: a Poliverde, que atua no
aproveitamento de resíduos têxteis, e A Deliveria, startup comprada por uma
gigante do setor do delivery online.
“A inovação é uma invenção que você consegue comercializar”,
define o gerente da Intuel, Thiago Spiri Ferreira. Hoje são 15 empresas
incubadas. O interesse parte dos empreendedores, que podem ser pesquisadores da
UEL ou comunidade externa, e a avaliação é feita por profissionais e acadêmicos
da comunidade que sejam referência em inovação.
“A principal contribuição da incubadora para o ecossistema é que
nós abrimos o conhecimento da universidade. Algumas empresas precisam utilizar
laboratórios, buscar informações junto à UEL e, no caso dos incubados, fazemos
a apresentação para a sociedade. Geramos empregos e tributação para a cidade e
mais serviços. E conseguimos entregar soluções para o mercado”, destaca
Ferreira.
SOLUÇÃO – O
serviço ou produto pode resolver uma “dor” das empresas e da sociedade. Um
quarto do tecido que chega às empresas de confecção vai para o descarte, em
forma de retalhos, antes de a roupa chegar ao consumidor, segundo pesquisa
divulgada pela ABIT – Associação Brasileira da Indústria Têxtil.
A solução oferecida pela Poliverde tem foco na economia
circular. A empresa ocupa um galpão de 50 metros quadrados no campus da UEL,
onde desenvolve um processo ambientalmente amigável de reciclagem e logística
reversa dos retalhos de poliamida, tecido usado na moda fitness.
A ideia veio do encontro, na UEL, entre a pesquisa de mestrado
em bioenergia do químico Jhonatan Baumi, que estudava um resíduo da indústria
do biodiesel, a glicerina, e um projeto de aproveitamento de retalhos de
poliamida do curso de Design de Moda. “No fim, a gente descobriu um processo
usando a própria glicerina para reciclar esses retalhos de tecido das
indústrias de confecção”, conta Baumi, que depois concluiu o doutorado, mas
decidiu não seguir carreira acadêmica e aproveitou uma das três patentes
geradas na academia para empreender.
“Para abrir a empresa, o empurrão que deu o impulso inicial foi
o edital da Fundação Araucária, chamado Sinapse da Inovação, com R$ 40 mil para
colocar a ideia em prática”, afirma.
Para inscreverem o projeto, Baumi e o engenheiro de computação
Mauricio de Moraes abriram a empresa em novembro de 2019 e, selecionados,
adquiriram maquinário para testar em pequena escala a viabilidade da
reciclagem. A seleção no edital abriu caminho também para contar com o apoio do
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – Sebrae.
Hoje a empresa incubada coleta e recicla retalhos de poliamida e
os transforma em pellets, matéria-prima plástica para o fio sintético (nylon)
ser tecido de novo. Além do suporte tecnológico, a incubadora proporciona bons
encontros, como o que traçou o design thinking da empresa para pensar a
estrutura, a parte gráfica, o logotipo e a linguagem visual e das redes
sociais.
CONEXÃO – Uma das grandes vantagens da
incubação é que a Intuel está ligada à Agência de Inovação da Universidade
Estadual de Londrina (Aintec), onde se conecta a três escritórios: design;
propriedade intelectual, que auxilia no registro da marca, produto ou serviço
junto ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI); e transferência
de tecnologia, na autorização para comercializar tanto o conhecimento quanto
serviços ou produtos gerados na UEL.
A Poliverde já voou longe, até a Alemanha. Foi de lá que o
químico empreendedor falou com a Agência Estadual de Notícias sobre a
trajetória da ideia até a empresa. Por quatro meses, os sócios vão e vem até a
Europa, com tudo pago, participando do Circular Valley, um programa de startups
com foco na economia circular. Agora os sócios querem fechar a cadeia verde,
tratando o resíduo – a glicerina – a partir de microalgas.
Para a nova etapa, eles já contam com um pesquisador custeado
pelos R$ 90 mil em bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq) e, recentemente, receberam um reforço de R$ 374 mil pelo
Tecnova, da Fundação Araucária, que visa o aumento da competitividade das
empresas paranaenses. “A Fundação Araucária está ajudando a gente demais, está
sendo a nossa mãe, brincamos. Temos o apoio do CNPQ, do Circular Valley, do
Sebrae, enfim, é uma jornada difícil, mas estamos com bastante apoio”, conclui
Baumi.
PROGRAMAS – Pertencente ao Governo do
Estado, a Fundação Araucária é uma das entidades que, junto à Superintendência
Geral de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, contribui para que as pesquisas
se transformem em produtos e serviços para a sociedade.
Dois programas estaduais beneficiaram a Poliverde: o Sinapse já
injetou R$ 4 milhões para que ideias saíssem do papel e o Tecnova 02 levou R$
9,5 milhões até os empreendedores.
O diretor científico, tecnológico e de inovação da Fundação,
Luiz Márcio Spinosa, cita as quatro fases de desenvolvimento apoiadas.
“Organizamos uma série de chamadas públicas desde o início da vida de uma
startup, quando ainda está idealizando uma solução frente a um problema.
Depois, em como materializar essa solução, o que a gente chama de produto
minimamente viável. Em seguida, vem a fase de quando ela tenta acessar
mercados, e muitas não sobrevivem nesse momento que chamamos de Vale da Morte.
Em um quarto momento, elas ganham voo próprio, acessam até cadeias globais e,
se tudo der certo, se tornam um unicórnio”, afirma.
O caminho já percorrido pela Poliverde nestes dois anos de
Intuel revela um horizonte promissor rumo à graduação, etapa em que a empresa
faz seu pouso seguro e independente no mercado. São, no máximo, quatro anos de
incubação.
DELIVERIA – Foi o que aconteceu com a
startup A Deliveria, integrada ao iFood em 2015. Roberto Moreira era acadêmico
de Economia na UEL quando a ideia virou empresa co-fundada junto aos amigos
Gabriel Monteiro Lorencette e Marlon de Carvalho Pascoal. Para ele, o período
de cerca de um ano e meio na incubadora “foi fundamental” para ganhar
experiência, registrar a marca, conectar-se e não se perder durante o rápido
crescimento.
Hoje o empreendedor atua no poder público. Um fato que comprova
o que diz o gerente da Intuel, Thiago Spiri Ferreira. “Além do capital
intelectual, a incubadora consegue fornecer bons profissionais ao mercado do
ecossistema de Londrina”, afirma. “Londrina está mais madura e evoluiu muito
devido à integração entre as entidades”, avalia Roberto Moreira, diretor de
Ciência e Tecnologia do Instituto de Desenvolvimento de Londrina (Codel) e
também diretor executivo do Ecossistema de Inovação da cidade.
Ele cita como pontos-altos a Redfoot, comunidade de
empreendedores do Norte e Noroeste do Paraná, e o Tecnocentro, construído pela
Companhia de Desenvolvimento de Londrina no Parque Tecnológico Francisco
Sciarra. O Tecnocentro deverá ser o ponto central para articular a inovação em
Londrina.
“As obras de construção a estrutura foram finalizadas e a
expectativa é que seja inaugurado ainda em março. Tem uma empresa do município
que vai como atração para o prédio. A ideia é que esse espaço comum entre as
empresas do parque tecnológico, crie essa governança e traga a academia para o
parque”, explica. A conclusão das obras foi possível com a liberação de R$ 2,9 milhões do
Governo do Estado, via Secretaria do Desenvolvimento
e de Obras Públicas.
PARQUES CREDENCIADOS – O Tecnoparque de Londrina está entre os 18
parques tecnológicos credenciados no Paraná atualmente, nove em funcionamento e
nove em processo de implantação ou planejamento. O Separtec – Sistema Estadual
de Parques Tecnológicos foi instituído pelo Governo do Estado como um
instrumento articulador e responsável por propor políticas e criar um ambiente
favorável ao desenvolvimento da inovação, conforme as particularidades de cada
região, como o que acontece em Londrina.
Fonte: Paraná Governo do Estado / Foto: Gilson Abreu/AEN