Publicado em: 28/03/2023
Quem vive do
turismo no Litoral do Paraná tem acumulado prejuízos. Depois de dois anos
praticamente sem movimento devido à pandemia de Covid-19, a expectativa era de
que esta temporada de 2023 fosse a redenção. Ou pelo menos o começo dela. Havia
até o fato novo da revitalização da Orla de Matinhos, um motivo a mais além do
controle da crise sanitária, para atrair turistas às praias paranaenses.
Mas as
novidades na praia de Matinhos não foram suficientes para levar os veranistas
esperados ao Litoral do estado. Enfrentar as rodovias como a BR-277 e a Estrada
da Graciosa passou a ser desafiador. Além das longas e demoradas filas, o risco
de acidentes começou a pesar, devido ao estado precário das estradas.
Hotéis,
pousadas, bares, restaurantes e o comércio em geral foram duramente impactados
pela falta de manutenção adequada nas estradas, que tem se acumulado desde
novembro de 2021, quando o contrato de concessão das rodovias pertencentes ao
antigo Anel de Integração foi encerrado.
Nos últimos
cinco meses, a situação se agravou. Foram sucessivos desmoronamentos de terra
na Estrada da Graciosa e na BR-277, onde também o asfalto rachou e afundou em
mais de um ponto, mais de uma vez. As estradas tem sido interditadas total ou
parcialmente, afugentando o turista do litoral do Paraná.
Na tarde da
última quinta-feira (16), a equipe da Tribuna do Paraná rodou pelos locais
críticos de obras na Serra da Graciosa, no km 12 e km 8. A estrada estava
totalmente interditada para os serviços de contenção de barreiras e por causa
da chuva – que caiu no dia anterior, quando foi registrado um acúmulo de 300 mm
de chuva em cinco dias.
No local das
obras, o volume de terra nos paredões da serra chegou a assustar por causa da
quantidade. Vale ressaltar que, mesmo quando a estrada é liberada para o
tráfego de veículos, o trânsito funciona o sistema de “pare-e-siga”. A viagem
da capital à Morretes, no Litoral, costuma ser mais lenta do que o normal.
Cancelamentos de reservas aumentam
crise
“Os
cancelamentos só aumentam a crise que começou na pandemia e agravou com o
trânsito impedido no final do ano passado e início deste ano”, observa Fábio
Agayo, presidente da Federação Paranaense de Turismo (Feturismo).
“Este é um
período que ainda mantém um clima típico de verão e sempre rende algum
movimento nos caixas de bares, restaurantes, casas noturnas, lojas e hotéis,
devido aos veranistas que aproveitam para vir antes da chegada dos meses de
inverno”, diz Agayo.
Esse ano, no
entanto, o mês de março está sendo muito fraco, segundo ele. Assim como deve
ser fraco também em abril, para quando havia expectativa de bom movimento
devido aos dois feriados (Páscoa e Tiradentes), além do último fim de semana do
mês que emenda com o feriado do Dia do Trabalhador (1º de maio).
Walid Omairi
é proprietário de hotel em Matinhos há 38 anos. Ele diz que o prejuízo á
incalculável. “Em março sempre tínhamos movimento. Ainda mais nos fins de
semana. Agora, as pessoas estão com medo descer ao litoral por causa das
estradas”, observa.
O empresário
conta que está fazendo demissões porque não tem perspectiva de que a situação
melhore. Ele tinha cinco funcionários, dos quais três forem demitidos
recentemente. “Os reparos não serão feitos logo e só estamos tendo prejuízo.
Não só os hotéis, mas o comércio em geral”, lamenta. “E pior é que a
sazonalidade do inverno nos preocupa ainda mais com esta situação da estrada”.
Para Omairi,
embora a BR-277 seja uma rodovia federal, o governo do Paraná também tem
responsabilidade sobre ela e sobre a situação na qual se encontra. “Foi negligência
do governo estadual também, porque se sabia há muito tempo que o contrato de
concessão ia se encerrar e o novo processo poderia ter sido agilizado”. O
governo do Estado rebateu a crítica por meio de nota (leia a íntegra ao final
da matéria).
Luciane
Novisk vive e trabalha em Pontal do Paraná. Ela é cirurgiã dentista, mantém um
consultório e também um café. “Estou tendo prejuízo dos dois lados. As pessoas
que moram e trabalham na região vivem do turismo e de vendas direta. Não estão
vindo mais em meu consultório porque perderam renda e não têm como bancar um
tratamento odontológico. E no café, sempre muito frequentado por turistas, não
há movimento”, afirma. “Está sendo a pior temporada para nós”, lamenta.
O presidente
da Associação de Hotéis, Pousadas, Restaurantes, Bares, Casas Noturnas e
Similares do Litoral Paranaense (Assindilitoral), Carlos Dalberto Freire,
também diz que não há dúvida de que o prejuízo é um dos maiores da série
histórica. “Na alta temporada até tivemos algum movimento, mas agora está
parado”, avalia.
Freire conta
que era muito comum, nessa de fim do verão e também mais para frente, fora da
temporada, pessoas da terceira idade frequentarem a praia. “Muitas têm casas
aqui, mas esse ano não estão vindo com receio de enfrentar as estradas. A
BR-277 do jeito que está é um grande problema”, pontua.
Prefeitos do litoral do Paraná pedem
solução definitiva
No último
dia 13, os prefeitos dos sete municípios do litoral do Paraná, ondem vivem 300
mil pessoas, se reuniram para e buscar uma mobilização e cobrar soluções.
“A maioria
das cidades aqui vive do turismo. Os donos de hotéis, pousadas e restaurantes
estão reclamando porque estão sem movimento”, diz Marcelo Roque, presidente da
Associação dos Municípios do Litoral (Amlipa) e prefeito de Paranaguá. Ele
conta que Morretes, cidade histórica que historicamente recebia muitos
turistas, especialmente nos fins de semana, está vazia. “Tem um restaurante lá
que tem capacidade para 70 pessoas e não tem sido frequentado por mais de 10”,
exemplificou.
Além do
turismo, o que preocupa muito toda a região, segundo Roque, é a saúde pública.
“Muitas pessoas que vivem em nossas cidades precisam fazer tratamento de saúde
em Curitiba, como sessões de quimioterapia e radioterapia para tratar um câncer,
que é imprescindível, e não estão conseguindo comparecer porque não têm como
sair do litoral”, conta.
Outro grave
problema é o impacto nos portos de Paranaguá e Antonina. “Essas cidades dependem dos portos, que estão tendo dificuldades para receber cargas
devido à precariedade das estradas”, diz
o prefeito.
“Vamos
perder arrecadação. O orçamento não será o mesmo e nós vamos ter que rever os
investimentos previstos para as áreas de saúde e educação” prevê Roque. Segundo
ele, no caso de Paranaguá, 70% da receita vem do porto.
Para o
presidente da Amlipa, não adianta ter pontos esporádicos de reparos porque a
todo momento tem problema. “É preciso resolver a situação de vez”, reivindica
ele. A associação está tentando uma agenda em Brasília para a próxima semana
com os ministros Renan Filho (dos Transportes) e Márcio França (dos Portos e Aeroportos). “Nós, prefeitos do litoral, queremos
levar a eles informações sobre tudo o que está acontecendo aqui e pedir
agilidade nas soluções”, informa Roque.
A
preocupação maior dos prefeitos é que a nova concessão das rodovias do Paraná
ainda vai demorar. Eles vão propor que, paralelamente ao processo da nova
concessão, se abra uma concessão de emergência, com dispensa de licitação, até
que o novo contrato, que terá vigência de longo prazo, seja assinado. “Somos favoráveis
à concessão, com um preço de pedágio justo. E não queremos encontrar um
culpado, queremos solução”, finaliza.
Governo do
Paraná reforça que assumiu trabalho emergencial nas estradas
Em nota, o
governo do Paraná rebateu a crítica vinda do litoral do Paraná referente à
negligência relacionada às estradas. Confira a íntegra do posicionamento do
Executivo estadual:
“O governo
do Estado sempre defendeu que os contratos lesivos do Anel de Integração,
envolvidos em escândalos, não fossem renovados. Desde o fim das concessões,
Estado e União contrataram empresas para manutenção das rodovias – o Estado,
nas PRs, e a União nas BRs. Os contratos da administração estadual somam R$ 93
milhões para os cinco lotes. Como havia limitação financeira por parte do
governo federal, o Estado assumiu também o atendimento emergencial com guinchos
nas rodovias estaduais e federais, mediante convênio. Uma renovação da
concessão também dependeria de uma decisão da União, já que o Estado não pode
legislar sobre a BR-277, uma rodovia federal, por exemplo. Naquele momento, em
2021, já havia um acordo com o governo federal sobre as novas concessões, que
ainda tramitaria no Tribunal de Contas da União (TCU). O modelo acordado prevê
mais de R$ 50 bilhões, um pacote robusto de obras e tarifas mais baixas em
relação àquelas praticadas no antigo contrato, atendendo demandas da sociedade apresentadas em audiências públicas.
O Governo do Paraná assumiu no ano passado uma obra emergencial na BR-277 para
ajudar o governo federal em um momento de transição e solicitou na semana
passada novos investimentos na rodovia e a manutenção do trecho com afundamento
da pista. O Estado segue confiante que o novo modelo de concessão seja firmado
em breve e que novos investimentos potencializem ainda mais a economia paranaense nos próximos anos”.
Fonte: NTC&Logística/ Foto: Reprodução/RPC