Publicado em: 23/05/2023
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou nesta
segunda-feira, 22, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer melhorar a
relação com o agronegócio, apesar da tensão entre o setor e a gestão petista.
Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, ele disse ainda que é a
favor do marco temporal das terras indígenas.
Segundo Fávaro, Lula "sucessivamente pede para estar
próximo do agro". "(O presidente) Quer se aproximar, ele me pergunta
por que não gostam dele", afirmou Fávaro. A relação do governo e do agro
tem se deteriorado com a série de invasões de propriedades produtivas pelo
Movimento dos Sem Terra (MST). O ministro admitiu que Lula já proferiu
"frases fortes" sobre o agro. Recentemente, em evento na Bahia, o
petista chamou ruralistas de "fascistas" após o ministro da
Agricultura ser desconvidado da Agrishow, em Ribeirão Preto (SP).
Fávaro citou iniciativas de governos passados de Lula, como a
regulamentação do uso de transgênicos no Brasil, a criação do Programa Nacional
do Biodiesel e a repactuação de um endividamento de 20 anos do setor
agropecuário. "Por tudo isso o agronegócio saiu de um patamar e foi para
outro muito maior, graças a essa persistência e dedicação do presidente Lula.
Então, quando ele toma alguma frase um pouco mais forte, nós temos de respeitar
a posição política dele", disse.
Sobre o episódio da Agrishow, Fávaro afirmou que o
ex-presidente da feira, Francisco Matturro, se deixou envolver por uma quebra
de protocolo. "Não se percebeu que estava se deixando envolver por
questões políticas", disse o ministro. A ausência de Fávaro e a presença
do ex-presidente Jair Bolsonaro no primeiro dia da principal feira de
tecnologia agrícola do País foi motivo de atrito entre o governo e a
organização do evento, no início deste mês. "Para mim é caso
superado", disse o ministro.
Questionado sobre ações para pacificar as relações do governo
com o agronegócio, o ministro ressaltou que praticamente todas as entidades
representativas de classe do setor já foram recebidas no Ministério da
Agricultura para informar dificuldades e buscar soluções e políticas públicas.
"Avançou muito o diálogo", disse.
Marco Temporal O ministro tratou também da demarcação de
terras indígenas, que é um tema recorrente na pauta do agronegócio. O caso
também está em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) e irá a julgamento
no dia 7 de junho. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) defende a
aprovação do Projeto de Lei 490/2007, chamado de PL do Marco Temporal, que
define como terras indígenas as que estavam ocupadas pelos povos tradicionais
até 5 de outubro de 1988 - data da Constituição - como forma de se antecipar à
Corte.
"Sou a favor do marco temporal, que traz segurança
jurídica", disse Fávaro. Ele se disse convicto de que o STF tem
conhecimento das dificuldades da discussão e vai tomar uma "decisão
equilibrada, respeitando os dois lados".
O ministro disse ainda que há necessidade de
"espaço" para que os povos indígenas se desenvolvam, supram suas
demandas e necessidades. "Vemos indígenas ainda em estados deploráveis em
um País de tanta riqueza e tanta fartura. Isso precisa ser corrigido",
afirmou. O ministro ponderou, no entanto, que essa concessão não pode ocorrer
"em detrimento de um setor tão importante", ao se referir à ocupação
de terras produtivas.
Para o ministro, a demarcação, caso se inicie, deve começar
pelas regiões com maiores conflitos, e é preciso haver o pagamento de uma
indenização aos produtores que precisarem deixar alguma propriedade. "É
possível fazer isso, precisa ter boa vontade e o governo do presidente Lula tem
essa boa vontade", ressaltou.
Produção O ministro disse ainda que é possível produzir sem
desmatar no Brasil e afirmou que o governo planeja criar linhas de crédito por
meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para
investimento em recuperação de terras degradadas. Fávaro afirmou que até mesmo
no Cerrado, onde se concentra a maior parte da agricultura de grãos do País, é
possível avançar a agricultura sem desmatar, plantando apenas em áreas
degradadas.
Ele ainda condenou a invasão de terras improdutivas. Segundo
ele, o MST pode lançar mão de passeatas, por exemplo, como forma de
reivindicação. "É legítimo e faz parte da democracia", disse.
"Agora, invadir terras da Embrapa eu não entendo por que fazer",
completou. Fávaro ainda ressaltou que o movimento também é produtivo e está
ligado à agroindústria e à produção de alimentos sustentáveis e orgânicos.
"O sonho e a luta pela terra também é legítimo, mas não pode ser de forma
desordeira e fora da lei", disse.
Fonte: UOL
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