Publicado em: 04/07/2022
CURITIBA – O
próximo governador do Paraná terá um desafio para o próximo governo que tem sido
pouco discutido na pré-campanha deste ano: como equacionar os leilões e
estabelecer preços justos para as praças de pedágios no Estado. Como tema
espinhoso, ele tem sido evitado tanto pela situação quanto pela oposição.
Desde novembro
de 2021, quando terminaram os contratos de concessão de 25 anos – firmados na
gestão Jaime Lerner, que morreu no ano passado –, as cancelas
de 27 praças de pedágio estão abertas no Paraná sem que haja cobrança de
tarifas. Passados sete
meses, a documentação de apenas dois dos seis lotes para novas concessões de
rodovias está no Tribunal de Contas da União (TCU), responsável por acompanhar
todo o processo.
Com o fim da
atuação das concessionárias, a manutenção das rodovias federais está com
o Departamento
Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Já as rodovias estaduais ficam sob a
administração do Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER/PR).
Pelo modelo
proposto, leva o lote a empresa que oferecer o maior desconto na tarifa-base.
Quanto maior o desconto, maior o aporte para obras. “Esses (primeiros) são os
lotes mais caros. Querem licitar e implantar neste ano. O governo federal
pressiona para que o leilão saia antes da eleição. Já o governo estadual está
rezando, pela questão política, que saia depois”, afirma Arilson Chiorato
(PT), deputado estadual e coordenador da Frente Parlamentar sobre o Pedágio.
O debate sobre
o tema, porém, ainda não chegou à pré-campanha e os candidatos, apesar de terem
posições sobre o assunto, evitam se aprofundar sobre a discussão. Segundo o
cientista político Emerson Cervi, assim como os carros que passam ao lado das
praças de pedágios desativadas, o tema ficará nas “canaletas do debate”.
“Deixar para depois das eleições (essa discussão) já é uma decisão para evitar
desgaste com possíveis cobranças que serão feitas caso não cumpram promessas
feitas durante a campanha”, explicou.
O modelo de
maior desconto sobre a tarifa-base é defendido pelo governador do Paraná e
pré-candidato, Ratinho Junior (PSD). Segundo ele, serão investidos quase R$
80 milhões com as obras nos primeiros anos de contrato. O governador também
afirma que haverá reduções significativa nos preços.
Principal
adversário, o pré-candidato Roberto Requião (PT), é contra o modelo. Para ele, a solução
é dar fim aos pedágios. Caso não seja possível, a proposta é ter “pedágio público”
com tarifa de manutenção, e o governo assumir a responsabilidade pelas obras.
Ele também defende a cobrança de obras não realizadas nas antigas concessões.
Atrás nas
pesquisas, o pré-candidato César Silvestri Filho (PSDB), considera ruim o
modelo proposto pelo governador e diz esperar ter tempo para reverter as
concessões. A pré-candidata Angela Machado (PSOL) é contra o pedágio
nas estradas. Ela diz que buscará baratear o transporte e garantir o direito à
mobilidade da população.
Em agosto do
ano passado, o governador prometeu tarifas de 40% a 50% mais baratas do que nas
antigas concessões. Com a inflação alta, os preços calculados à época estão
sendo revisados pela Agência Nacional
de Transportes Terrestres (ANTT) -
e ficando mais caros.
Nos primeiros
leilões, tarifas ficaram mais caras
No primeiro
lote, os preços das tarifas que vão a leilão foram aumentados em 29,7%, em
maio. Neste mês, houve correção dos valores do segundo lote, que tiveram
acréscimo de 23,3% nas tarifas.
“Tudo indica
que vai ter aumento em relação à tarifa que era paga. O próprio TCU demonstrou
preocupação”, diz Chiorato.
Um exemplo é o
da praça de pedágio da BR-277 em Balsa Nova, na região de Curitiba. Antes do fim da concessão, a tarifa
para carros era de R$ 9,60. O preço divulgado pelo governo para ir a leilão foi
de R$ 8,01. Porém, com a atualização, subiu para R$ 10,33. Esse não é o valor
final, pois ainda terá o desconto oferecido em leilão.
“Não tem almoço
grátis. Quanto mais serviços e maior valor agregado, maior será o custo. Outro
ponto que precisa ser melhor especificado diz respeito ao degrau tarifário (de
40%), que aumenta a tarifa na medida em que investimentos forem realizados”,
avalia Roberto Gregório, que coordenou estudos sobre o modelo de pedágio no
Estado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Dois estudos
técnicos do grupo, que apontam falta de informações e erros em obras, foram
enviados ao TCU com 24 pontos de atenção sobre as novas concessões. A maior
parte dos leilões dos lotes deverá ocorrer em 2023. Além do trâmite no TCU e
ANTT, ainda falta Ratinho assinar a cessão de rodovias estaduais à União.
Fim das
concessões de estradas ocorre em meio a investigações sobre corrupção
A não
prorrogação dos contratos das antigas concessões foi uma opção do governador,
que ainda poderia ter criado pedágio com tarifa de manutenção até as novas
concessões. A decisão de Ratinho Jr. foi pela abertura das cancelas até que
fosses realizados os leilões dos novos lotes pelo Ministério da Infraestrutura,
por 30 anos.
As seis
concessionárias que administravam as rodovias do Anel de Integração entraram na
mira da Lava Jato em 2018. Duas fases da operação, a 48.ª e 55.ª, foram
deflagadas para investigar irregularidades nas rodovias pedagiadas do Paraná,
como suspeitas de crimes de corrupção, fraude a licitações e lavagem de
dinheiro.
Nas operações
Integração 1 e 2, chegaram a ser presos um irmão e outras pessoas próximas ao
ex-governador Beto Richa (PSD), o ex-diretor-geral do Departamento de Estradas
de Rodagem do Paraná (DER-PR) Nelson Leal e diretores das concessionárias.
Fonte: Estadão /
Foto: divulgação/Estadão