Publicado em: 10/03/2023
Nas últimas semanas, buscando pressionar membros do Conselho
Nacional de Política Energética (CNPE), a
indústria do biodiesel no Brasil tem chamado a atenção dos meios de comunicação
com notas agressivas e distorcidas.
Utilizando-se da urgência na atenção ao meio ambiente e à
adoção de práticas sustentáveis – preocupação real de toda a sociedade –, esses agentes
econômicos buscam acobertar seus reais interesses: garantir uma reserva de
mercado contra a concorrência de biocombustíveis mais modernos.
O que era, inicialmente, uma proposta de economia solidária e de incentivo
ao uso de energia limpa, além de fonte de renda para a agricultura familiar e
para o agricultor de baixa renda – com o plantio de palma e mamona para
produção de biodiesel –, transformou-se em um negócio rentável apenas para os
grandes produtores.
O biodiesel produzido hoje no Brasil é o de base éster. A
característica química desse biodiesel gera problemas como o de criação de
borra, com alto teor poluidor. Na prática, esse sedimento danifica peças
automotivas, bombas de abastecimento, geradores de hospitais, máquinas
agrícolas e motores estacionários. Outro dano ocasionado pela borra é o
congelamento e contaminação do insumo. O biodiesel cristaliza em baixas
temperaturas em motores quando as situações climáticas envolvem variação de
temperatura e umidade.
Com a mesma soja e demais biomassas que se faz o biodiesel
de base éster é possível fazer o diesel verde (HVO) – este, sim, sustentável e
funcional. Mas as discussões sobre o incentivo à produção e uso de diesel verde
não evoluem também por questões econômicas e políticas. Quem produz o biodiesel
não quer o HVO. A verdade é que os atuais produtores de biodiesel não querem
perder o lucro fácil e rápido do biodiesel de base éster, nem investir na
modernização do processo industrial para produzir diesel verde.
Os responsáveis pela produção de biodiesel buscam empurrar
essa realidade para debaixo do tapete.
O tema do uso do biodiesel e a sua atual forma de produção
no Brasil precisam ser revisitados. Isso implica a promoção de estudos
para identificar os impactos em toda a cadeia produtiva do Brasil, dos motores
dos ônibus e caminhões, passando pelo distribuidor e pelo revendedor do diesel,
até o transportador.
A indústria automotiva tem sofrido consequências com as
avaliações de padrão de qualidade: perda da eficiência de motores, aumento do
consumo de diesel e, consequentemente, mais poluição.
Donos de postos de combustíveis, além de problemas que
enfrentam nas bombas, encaram a ira de motoristas que abastecem com a mistura
de biodiesel e voltam para reclamar de pane em seus veículos, como se o
combustível estivesse adulterado.
O transportador – que move este país –, por sua vez, tem se
deparado com problemas mecânicos relacionados ao descompasso entre o teor do
biodiesel e as limitações das tecnologias veiculares e peças automotivas. Além
de gastar mais com um combustível que não é ambientalmente sustentável, ainda
fica por vezes parado na estrada, perdendo tempo e aumentando seu prejuízo.
Esses prejuízos se dão em virtude do desgaste prematuro de
peças veiculares; da descompensação ambiental das emissões de poluentes; e da
onerosa participação do biodiesel no preço final do diesel comercializado.
Não há mais tempo para ‘achismos' (qual é a mistura
ambientalmente mais viável, afinal?). Nem é momento, diante de tantas
dificuldades já enfrentadas, de o país se curvar aos interesses econômicos de
um setor que, sob o falso pretexto socioambiental, só quer lucrar mais.
O Brasil deve olhar para a experiência mundial. A mistura
para o consumidor final, para os motores funcionarem a contento, garantindo a
redução de emissões, é de 7% na Comunidade Europeia; 5% no Japão e Argentina;
de 1% a 5% no Canadá; e de 5% nos Estados Unidos, usualmente. E esses países
estão na linha de frente das preocupações climáticas. Aqui, já se pratica um
percentual de 10%.
Ouvir todos os setores que possam contribuir com o entendimento técnico do que representa a adição do biodiesel ao diesel nas atuais configurações é dever do Governo e do Legislativo brasileiros, porque isso afetará toda a sociedade. É o que todos esperamos.

Fonte: NTC&Logística / Foto: Divulgação