Publicado em: 01/11/2022
Caminhoneiros apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL)
promoveram bloqueios em estradas de 18 estados brasileiros. Os atos começaram
na noite deste domingo (30) e se estenderam pela segunda-feira (31). No Paraná,
foram ao menos 64 pontos de bloqueio, 40 registrados em rodovias federais.
Foram atingidos os municípios de Almirante
Tamandaré, Araucária, Bandeirantes, Barracão, Bituruna, Céu
Azul, Chopinzinho, Cruzeiro do Oeste, Fazenda Rio Grande, Foz do Iguaçu,
Guaíra, Guamiranga, Guarapuava, Guaratuba, Ibaiti, Irati,
Jardim Alegre, Joaquim Távora, Londrina, Mandirituba, Marechal Rondon,
Marialva, Maringá, Marmeleiro, Nova Aurora, Paranaguá, Paranavaí,
Ponta Grossa, Prudentópolis, Realeza, Santa Helena, São José dos Pinhais,
São Mateus do Sul, Terra Boa, Tijucas do Sul, Toledo, União da Vitória e
Umuarama.
Na região de Londrina, os caminhoneiros se concentraram
na PR-445, nas proximidades do Posto Cupinzão, em Cambé. O caminhoneiro
Lourival Santos, que ajudou a organizar o protesto, cujo apelido é “Louro da
Londrina”, afirmou que o motivo da manifestação é individual e que cada um que
está no movimento parou porque quis. “Para que todo mundo saiba, é uma
manifestação ordeira. O pessoal quer ordem e progresso. Foi tirada a democracia
nossa ontem (30) através de uma eleição que não concordamos. A partir disso
criamos um movimento nacional. Não é só Londrina. O Brasil inteiro está
parando”, declarou.
Por lá havia vários caminhões parados, mas os veículos de
passeio seguiam o seu fluxo. Alguns motoristas foram abordados pela reportagem,
mas não quiseram conceder entrevistas, falando que não tinham a ver com o
movimento.
O presidente do Sindicato do Transporte Rodoviários
Autônomos de Bens de Londrina e Região, Carlos Roberto Dellarosa, afirmou
que a paralisação dos caminhoneiros na região contra o resultado das eleições
não partiu do sindicato. "A gente está aguardando uma posição da
confederação que representa a nossa categoria e do próprio Governo Federal.
Estamos tentando entrar em contato com Brasília, para falar com
o Secretário Nacional de Transportes Terrestres, Marcello Costa, para
saber a posição da pasta, porque para nós irmos para a rua sacrificando um dia,
dois ou dez não vai resolver nada se a gente não tiver uma voz lá na
frente. Cada um fala uma coisa sobre o resultado da eleição, mas quem vai
acusar? Nós não temos prova que alguém roubou ou deixou de roubar. Nem eles
estão conseguindo prova, caso contrário já teria entrado com paralisação por
causa disso. Estamos aguardando para ver o que acontece."
Segundo ele, a paralisação na região de Londrina não partiu
do sindicato, mas dos próprios caminhoneiros. "O movimento nacional não
tem liderança alguma, mas a gente não pode tomar uma decisão que possa nos
prejudicar. Estamos aguardando essa resposta de nossa confederação e do
governo."
O Tenente Sidinei Hudach, comandante do BPRV (Batalhão de
Polícia Rodoviária), informa que os locais de manifestação em Rodovias
Estaduais estão sendo monitorados e equipes policiais estão presentes. “A
orientação para os motoristas é de que busquem vias alternativas às rodovias
citadas por intermédio de aplicativos de GPS/orientação. No momento estamos
monitorando os bloqueios e enviando equipes aos locais para verificar quais os
objetivos dos manifestantes”, declarou.
A Polícia Rodoviária Federal, por sua vez, afirmou por meio
de nota que sempre trabalhou com o compromisso de garantir a mobilidade
eficiente, a preservação da ordem pública, a segurança viária e o combate ao
crime nas rodovias federais brasileiras. “Desde ontem [domingo], quando
surgiram as primeiras interdições, a PRF adotou todas providências para o
retorno da normalidade dos fluxos locais e iniciando o processo de negociação
para liberação das rodovias priorizando o diálogo, para garantir, além do
trânsito livre e seguro, o direito de manifestação dos cidadãos. como aconteceu
em outros protestos.”
A PRF afirma que já acionou a AGU (Advocacia Geral da União)
em todos os Estados onde foram identificados pontos de bloqueio, para obter
interdito proibitório na Justiça Federal, objetivando liminarmente, a expedição
de mandado judicial como forma de garantir pacificamente a manutenção da
fluidez nas rodovias federais brasileiras.
Tanto a PRF quanto o BPRV afirmam que pode ser aplicado o
Artigo 253 do CTB (Código de Trânsito Brasileiro) que diz que bloquear a
via com veículo é uma infração gravíssima. A penalidade é a multa e apreensão
do veículo e a medida administrativa é a remoção do veículo.
ÔNIBUS
Na rodoviária de Londrina, a paralisação também afetou o
fluxo de ônibus de passageiros e o que se viu natarde desta segunda-feira (31)
foi um lugar vazio, com poucos ônibus e poucos passageiros, com atrasos de
alguns deles. Luiz Carlos da Silva Fantacholi, 20, estudante da UTFPR de Cornélio
Procópio, afirmou que veio de Borrazópolis à rodoviária de Londrina. “Para vir
para cá já foi complicado. Eu tinha ônibus 12h20 e perdi. Para o próximo,
preciso esperar mais três horas e meia para pegar o outro ônibus para ir para
Cornélio e não sei se a rodovia está bloqueada daqui para frente. Eu não sei o
que esperar. Vai atrapalhar bastante para chegar no meu destino final. Eu tinha
que apresentar um trabalho e fiquei sem nota. Isso já me prejudicou bastante.”
Lisanne Nes Venema afirmou que tem uma viagem marcada para o
Rio Grande do Sul. “Eu vou perguntar no guichê se vai ter o meu ônibus. Eu
fiquei sabendo dos bloqueios pelo motorista do Uber. Preciso ver o que vou
fazer, eu estava programando essa viagem há duas semanas. De repente precisarei
voltar para casa. Para mim é preocupante, porque a viagem é longa.”, destacou.
Alessandra Lotici, 24, estava esperando na rodoviária de
Londrina um ônibus para Chapecó (SC) e afirmou que teria de aguardar até o
horário de embarque para saber se o ônibus viria ou não. “E se houver atraso
deve entrar em contato com a empresa de ônibus para saber como proceder. De
qualquer forma teremos de aguardar”.
MOVIMENTO SE DIVIDE E LIDERANÇAS PEDEM FIM DE BLOQUEIOS
Caminhoneiro autônomo e diretor da CNTTL (Confederação
Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística), Carlos Alberto Litti
Dahmer diz que a manifestação dos motoristas é antidemocrática e não defende os
interesses da categoria.
"A pauta que está sendo discutida agora não é uma pauta
dos trabalhadores do transporte, não é uma pauta econômica. A pauta econômica
que deve ser mantida e levada, independente do governo".
Presidente da ANTB (Associação Nacional de Transportes do
Brasil), José Roberto Stringasci afirma que as ações que culminaram nos bloqueios
das rodovias não foram organizadas por entidades que representam os
caminhoneiros.
Segundo ele, a ação é organizada por pessoas que não
participam da categoria e que estão obrigando os caminhões e pararem na pista.
"Não necessariamente é o caminheiro que está parando.
Eles estão parados por causa dos bloqueios. Existem alguns caminhoneiros que
estão apoiando. Mas não é a categoria no geral que está fazendo. É um ou outro
motorista que está participando", diz Stringasci.
Fonte: Folha de Londrina / Foto: Gustavo
Carneiro/Grupo Folha