Publicado em: 19/04/2023
O Paraná é
um dos maiores produtores nacionais de feijão, grão que tem presença
obrigatória no prato dos brasileiros. No Estado, a produção é principalmente de
agricultores familiares e, por isso, o Governo do Estado tem investido no
melhoramento genético para aumentar a rentabilidade e a produtividade das
lavouras.
O IDR-Paraná
(Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná – Iapar- Emater) mantém um dos
principais programas de melhoramento genético do País, e mudou a realidade
agrícola do Estado, gerando conhecimentos, produtos e tecnologias. Como
resultados, além de ganho na produtividade, propicia a prática de uma
agricultura mais sustentável, a redução da utilização de agrotóxicos e,
consequentemente, a produção de alimentos mais baratos e seguros para a
sociedade paranaense.
A iniciativa
começou a ser estruturada ainda na fundação do antigo Iapar (Instituto
Agronômico do Paraná), em 1972, com o objetivo de desenvolver cultivares para o
mercado interno e externo, com bons atributos. São plantas que passaram por
processos de melhoramento para que sejam inseridas características que não
possuíam.
GENÉTICA – Desde que foi iniciado, o programa
de melhoramento genético já colocou à disposição dos agricultores de todo o
Brasil, e de alguns países da América do Sul e Europa, 223 cultivares. Destas,
41 são de feijão, e 11 estão atualmente com sementes disponíveis no mercado e
cultivadas em todas as regiões produtoras no país. São elas: o IPR Tangará, IPR
Campos Gerais, IPR Quero-quero, IPR Bem-te-vi e IPR Sabiá, todos do grupo
comercial carioca. Há também no grupo comercial preto o IPR Uirapuru, IPR
Tuiuiú, IPR Nhambu e IPR Urutau e, do grupo especial, o IPR Garça (branco).
Na safra
2022, 63% dos campos de multiplicação de sementes de feijão preto e 14% de
carioca no Brasil eram cultivares IPR. “Observamos uma preferência do
agricultor pelas cultivares desenvolvidas pelo IDR-PR, porque são variedades
que promovem rentabilidade, contribuem para uma produção sustentável e têm
resistência às principais doenças que ocorrem no Estado”, disse Vânia Moda
Cirino, especialista em melhoramento genético de feijão e atualmente diretora
de Pesquisa do Instituto.
SOCIAL – “A cultura do feijão é uma das
prioridades do instituto, porque tem grande relevância econômica e social para
o Estado. É predominantemente produzida por pequenos produtores, constituindo a
principal fonte de renda desses agricultores familiares”, explicou a diretora.
O
desenvolvimento de uma nova cultivar é um trabalho de longo prazo. Desde o
planejamento dos cruzamentos, que visam à combinação dos genes para obter as
características pretendidas para a planta até o lançamento das sementes para
multiplicação, são 10 a 12 anos de estudos. O melhoramento genético agrega
diversas características à planta, como ciclos de cultivo mais curtos,
tolerância a diferentes condições de clima e de solo, arquitetura de planta que
facilita a colheita mecânica e até mesmo a qualidade culinária do grão.
MAIOR PRODUTIVIDADE — Laercio Della Vecchia, produtor
rural em Mangueirinha, no Sudoeste do Estado, plantou por muito tempo
variedades de feijão como o rajado, além do esteio e preto puro, mas, depois
optou pelo carioca, com o plantio do IPR Sabiá. “Ele tem se mostrado muito bom
em campo. Já no primeiro ano, produziu 70 sacas por hectare e nosso custo foi
de apenas R$ 4 mil por hectare. Neste ano, o valor da saca girou em torno de R$
350 a R$ 400 reais”, disse o produtor.
Após o
processo de melhoramento genético, os grãos passam a ter alto potencial de
rendimento e adaptação ao solo, garantindo mais estabilidade de produção. As
plantas crescem com porte ereto, o que as torna mais apropriadas para a
colheita mecânica e também desenvolvem resistência maior às principais doenças.
“Quando você
tem uma genética que te dá tolerância, não tem necessidade de fazer tantas
aplicações de fungicidas. Nós produzimos um alimento mais saudável, nutritivo,
que vai fazer toda a diferença para o consumidor final. Estou conseguindo tirar
os meus feijões sem o uso de inseticida. Em produtividade é o melhor que eu
conheço hoje”, ressaltou Laercio.
Para ele, a
escolha pela variedade ofertada pelo IDR-PR trouxe uma série de benefícios.
“Uma boa safra começa com sementes de qualidade. Tivemos redução de custo e
aumento de produção. É um feijão muito fácil de conduzir em termos de doenças
radiculares e aéreas, principalmente antracnose, e é muito fácil de ser
colhido, já que tem pouca perda mecânica”, avaliou.
IMPACTO – De acordo com Vânia, todas essas
particularidades impactam positivamente o setor, já que os grãos passam a ter
características adequadas ao segmento comercial, com um tamanho maior e boa
aparência, mais tolerantes ao escurecimento. “São excelentes para a comercialização
por conta da coloração, forma do grão, e qualidade culinária. Não adianta ser
uma variedade boa de campo e ruim de panela”, enfatizou.
Com isso, a
população que consome o feijão passa a ter um alimento de melhor qualidade, com
cozimento rápido e caldo consistente, de sabor agradável e com elevado
porcentual de grãos inteiros após o preparo. “Os seres humanos são reflexos do
que comem. Solo rico, alimento rico. Estamos entregando um alimento com mais
ferro, cálcio, mais rico em minerais. Além do produtor colher bem, o consumidor
ganha um alimento muito mais nutritivo”, destacou o produtor.
DESTAQUES — Uma das maiores conquistas do
programa foi o desenvolvimento de cinco cultivares com resistência ao mosaico
dourado, doença das mais prejudiciais a lavouras de feijão no Brasil, um
constante desafio à pesquisa nacional. São quatro do tipo carioca — IPR Celeiro
(2016), IPR Eldorado (lançada em 2006), IAPAR 72 (1994) e IAPAR 57 (1992) — e,
ainda, IAPAR 65, do grupo preto, de 1993.
Na categoria
de grãos do tipo carioca, a vitória mais recente do IDR-Paraná é a cultivar IPR
Águia, que se destaca pela resistência ao escurecimento dos grãos. Em condições
adequadas de armazenamento, grãos de IPR Águia levam cerca de nove meses para
começar a escurecer, um atributo importante para os agricultores.
“Os
consumidores não compram um feijão com pigmento escurecido porque o associam a
um feijão velho que não cozinha. Além disso, os agricultores não dão pouso para
feijão carioca, eles colhem e imediatamente comercializam para não perder
valor. Essa cultivar possibilita que armazene o grão por um determinado
período”, ressaltou Vânia.
GOURMET – O grupo de melhoramento genético de
feijão do IDR-Paraná também busca avanços na categoria de feijões especiais
(grãos do tipo gourmet). O IDR-Paraná vai lançar este ano a cultivar
IPR-Cardeal, de grãos vermelhos, desenvolvida para o segmento de exportação,
particularmente a indústria de enlatados e conservas. Informações sobre todas
as cultivares do grão estão disponíveis AQUI.
Vania
compartilha uma curiosidade: o fato de todas as cultivares de feijão produzidas
pelo Iapar ganharem o nome de pássaros. “Os pássaros são nossos companheiros na
lavoura quando estamos trabalhando. Nós associamos o nome da ave com alguma
característica que se ressalta na cultivar”, disse.
COMO É FEITO – A obtenção de uma linhagem a ser
cultivada passa primeiro pela avaliação e seleção dos genitores que carregam as
características agronômicas, comerciais e culinárias desejáveis para o cultivo.
Isso inclui resistência a determinadas doenças, o potencial de rendimento,
adaptação ao clima e até a cor, tempo de cozimento e quantidade de nutrientes
no grão.
Pelo método
de melhoramento convencional usado pelo Iapar, os genes são cruzados e
recombinados para obter um único genótipo com as características esperadas para
aquela cultivar. O produto resultante desses cruzamentos, que passa por oito
gerações da planta sendo colhida e replantada, é avaliado até atingir a
estabilidade genética do material.
Após esse
processo, que leva de três a quatro anos, o material selecionado é testado em
diferentes ambientes do Estado, sendo plantado nas estações experimentais do
Iapar e em áreas de produtores parceiros para avaliar sua adaptação a
diferentes climas e solos.
O programa
também conta com um protocolo para manejo integrado de pragas (MIP-Feijão),
tecnologia para fixação biológica de nitrogênio e métodos para o manejo
sustentável das principais doenças. Vânia explicou que esse procedimento foi
aplicado em todas as áreas acompanhada pelo IDR-PR.
“Em boa
parte das minhas áreas não houve necessidade de aplicar inseticida. O MIP
diagnostica os bichos inimigos e a gente só interfere quando eles estiverem em
maior proporção ou causando danos. Quando tem necessidade, aplica, quando não
tem, não aplica”, detalhou a diretora de Pesquisa do IDR.
Segundo
Vânia, todo esse processo é essencial e muito satisfatório, já que beneficia
tanto o produtor como o consumidor. “É muito bom poder trabalhar com uma
cultura em que você beneficia o produtor, principalmente o pequeno, trazendo
uma tecnologia que gera renda para ele, e contribuir também com a sociedade,
gerando um alimento de excelente qualidade nutricional. Estamos sempre em busca
de boas características agrícolas, culinárias e nutricionais. Queremos um
feijão com mais proteína, mais ferro, mais zinco, um alimento que possa
realmente nutrir a população”, projetou a diretora de pesquisa.
Fonte:
Portal Rondon/ Foto: Laércio/ Acervo Pessoal