Publicado em: 14/03/2023
A participação das mulheres no transporte de cargas está
crescendo de maneira gradual. Alguns números comprovam essa nova realidade e
mostram haver uma tendência das grandes corporações em apostarem na adversidade
e fazer escolhas com base no talento, comprometimento e competência do candidato.
Dados do Instituto Paulista do Transporte de Cargas (IPTC), órgão de pesquisa
parceiro do Setcesp, mostrou que em 2021 aconteceram em São Paulo 32.094
contratações femininas para cargos no setor de transporte. O crescimento é 61%
superior a 2020, especialmente nas áreas administrativa e comercial, com
representatividade feminina de 52% e 56% sobre a masculina, respectivamente. Já
no setor operacional foram registradas 13.741 contratações femininas e 125 mil
masculinas.
Desde de 2015, o projeto do Sest Senat de Habilitação
Profissional para o Transporte – Inserção de Novos Motoristas registrou a
participação de 2.311 mulheres e em cinco anos a demanda cresceu 60,4% em
cursos da instituição voltados para transporte de passageiros, produtos
perigosos e escolar. Em 2019, os cursos mais procurados foram Cuidados
Especiais no Transporte de Escolares, Custos Operacionais do Transporte de
Cargas e A Precificação no Transporte Rodoviário de Cargas.
Apesar do interesse feminino no setor de transporte rodoviário, o número de mulheres
habilitadas com CNH para dirigir caminhão ainda é muito baixo em relação aos
homens. Segundo a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), com dados de
janeiro de 2022 do Registro Nacional de Carteira de Habilitação (Renach) foram
registradas 4,39 milhões de CNHs para veículos pesados (caminhões e carretas),
das quais 97,19% são para motoristas homens e apenas 2,81% para motoristas
mulheres.
Participação das mulheres no transporte de cargas: “é preciso
encorajar as mulheres a se candidatarem a qualquer vaga que desejarem”
“O homem tem mais facilidade para se candidatar a qualquer
vaga, mesmo quando está inseguro. Já a mulher precisa sentir segurança plena
para se arriscar”, disse Ana Jarrouge, presidente executiva do Setcesp e
idealizadora do Movimento Vez e Voz, ação que surgiu com o objetivo de
valorizar as mulheres que já atuam no setor de transporte e atrair talentos
para aumentar a participação feminina no setor. “É preciso acabar com esse
paradigma e encorajar as mulheres a se candidatarem a qualquer vaga que
desejarem”, complementou.
Na sua avaliação existem dois setores onde a participação
das mulheres no transporte de cargas ainda é baixa e é necessário mudanças: o
operacional (motorista, mecânico, analista e gerente de logística, conferente)
e o C-Level, que engloba os cargos executivos). “Dentro do Movimento Vez e Voz
entrevistamos mulheres que já atuam nessas funções e colocamos elas em destaque para se sentirem
valorizadas e ao mesmo tempo encorajar e inspirar outras profissionais a
enxergarem que realmente existe a possibilidade”.
Os desafios para aumentar a participação das mulheres no
transporte de cargas são muitos, e passam por questões que envolvem
infraestrutura e flexibilidade. Ana Jarrouge afirma que as motoristas reclamam
da falta de estrutura na estrada e nas empresas para as quais prestam serviços,
sendo uma delas a falta de banheiro. Já nos cargos executivos a questão é a
flexibilidade de jornada que esbarra em questões como a maternidade, por isso a
necessidade de envolver as empresas nesse processo. “Estamos desenvolvendo um
manual de boas práticas para orientar as empresas como se posicionam para
atrair esse público e mantê-las na atividade”, acrescentou.
Para Ana, essas ações são extremamente necessárias, pois o
Brasil tem um mercado envelhecido e de carência de profissionais. Ela reforça
que as mulheres apresentam um diferencial já percebido, principalmente quando
se trata das motoristas. Disse que empresas relatam que elas contribuem para a
redução do custo de manutenção, se envolvem menos em acidente, gostam de se
capacitar e são mais atenciosas no trato com os clientes. “As empresas têm
vagas abertas, mas dizem que não há candidatas. Temos que mostrar isso, que
existem vagas e encorajá-las, pois esse é o caminho para tentarmos mudar essa
realidade e atrair os talentos para o TRC”, concluiu.
Participação das mulheres no transporte de cargas: “é um
movimento que realmente queremos dar voz a elas”
Outra ação com o mesmo objetivo de ampliar a participação
das mulheres no transporte de cargas é o Movimento Voz Delas. Idealizado pela
Mercedes-Benz, a iniciativa nasceu de uma demanda de mercado com base em
relatos tanto de motoristas quanto de esposas sobre a falta de infraestrutura
nas estradas. “Percebemos um número
expressivo de mulheres que estavam passando por situações degradantes. Muitas
vezes as esposas dos caminhoneiros têm de aguardar do lado de fora da empresa,
às vezes à noite, com filho no colo, enquanto o marido carrega ou descarrega o
caminhão”, disse Ebru Semizer, gerente sênior de marketing comunicação &
inteligência de mercado caminhões da Mercedes-Benz do Brasil.
No caso das mulheres motoristas, Ebru lembra que raramente
elas encontram banheiro feminino para tomar um banho durante as viagens. “Foi
com base nesses relatos que pensamos em criar um movimento para tentar mudar
essa realidade e com isso trazer mais mulheres para o transporte”, explicou. Ela
acrescentou que o primeiro passo, foi se aprofundar mais nessas questões para
entender quais eram as principais barreiras que impediam uma mulher de tentar
ser motorista ou até mesmo acompanhar o marido na estrada.
A partir da principal queixa das mulheres a Mercedes-Benz
fez a parceria para a reforma de posto de serviço em Goiânia/GO para servir de
modelo de como deve funcionar um ponto de parada. “Colocamos uma lavanderia e
banheiros higiênicos. O dono do posto registrou aumento de 10% no movimento constando
que o investimento valeu a pena”, contou.
Para Ebru é muito importante levar essa questão para todas
as empresas que fazem parte do processo de transporte. “Esse é um dos objetivos
do movimento, trazer essa consciência. Como uma das ações, as empresas que
possuem estrutura adequada para receber mulheres motoristas e cristais estão
ganhando selo apoiador do movimento. E, alguns parceiros estabelecem como
condição o transportador estar dentro dessas normas para serem contratados e
assim o movimento vai provocando um impacto maior e trazendo bons resultados”
Dentro do portal do Movimento Voz Delas são disponibilizadas
muitas informações para fazer as mulheres se sentirem mais valorizadas e se
sentirem mais atraídas a participar do setor de transporte rodoviário de cargas. Além de
dicas o portal divulga vagas abertas para facilitar a busca por uma
oportunidade. Outra ação do movimento é a campanha Na direção do seu sonho, que
ajudou no processo da CNH mulheres que queriam ser motoristas mas não tinham
condições de fazer todo o processo.
Ebru lembra que esses movimentos estão contribuindo para uma
mudança bastante positiva em relação a participação das mulheres no TRC e
ampliam essa consciência dentro das empresas. Além disso, as associações estão
se juntando à essa causa e existem cursos direcionados para as mulheres.
Adiantou que será provido na Fenatran um Fórum das Mulheres no Transporte, com
a todas as iniciativas que estão contribuindo para mudar essa realidade. “Vamos
levar também para a Feira um caminhão Mercedes-Benz feito por mulheres para
mulheres. Vamos fazer barulho e chamar atenção para que essa causa seja vista e
abraçada. É um movimento onde realmente queremos dar voz a elas”.
Participação das mulheres no transporte de cargas: “fomos
nos adequando para atrair essa mão de obra”
Tatiane Rabuske, coordenadora de RH da transportadora
Ghelere, aposta no treinamento de motoristas para valorizar os profissionais e
reduzir a rotatividade na empresa. Os cursos duram 20 dias e apenas após esse
período os profissionais estão liberados para começar. “Começamos no ano
passado e depois da contratação nesse modelo nossa rotatividade diminuiu
bastante”, disse. Ela acrescentou que o treinamento de homens e mulheres, com
ou sem experiência alguma, é realizado em caminhão trucado.
Atualmente a transportadora atua com seis mulheres. “Como o
nosso objetivo sempre foi ampliar a participação das mulheres em todas as áreas
da nossa empresa fomos nos adequando para atrair essa mão de obra. No caso das
motoristas, optamos em deixá-las trabalhar com os caminhões automatizados e em
rotas mais curtas para ficarem afastadas dos filhos por grandes períodos”,
explicou. Em relação à falta de infraestrutura nas rodovias, Tatiane afirmou
que trabalha apenas com postos de grande porte e que ofereçam estrutura
adequada para receber os motoristas da transportadora, sejam eles homens ou
mulheres. Atualmente a Ghelere continua se adaptando para atrair mais mulheres
para trabalhar na empresa.
Participação das mulheres no transporte de cargas:
“precisamos urgente de investimentos das empresas para educar as mulheres para
a atividade”
Há mais de um ano a Fabet vem fortalecendo a inserção de
motoristas no setor de transporte. De acordo com a gerente geral da Filial SP,
Salete M. Argenton, após mais de 12 meses de ações diversas, dezenas de
mulheres formadas e atuando, o problema da falta de investimentos das empresas
em preparar, formar, educar as mulheres para a atividade continua. “Precisamos
urgente de investimentos sérios e de oportunidades para as mulheres ingressarem
e mostrarem o seu talento e competência na arte de conduzir caminhões modernos
e tecnológicos, seja para operações urbanas, rodoviárias, off road ou
internacional. Nossas ex-alunas estão espalhadas pelo Brasil e pelos diversos
perfis de transporte, comprovando a qualidade do seu trabalho”, relatou.
Salete explicou que a Fabet incluiu sempre incentivas para
aumentar a participação das mulheres no transporte de cargas porém, em todos os
cursos a aderência ainda é baixa. Em 2021, com a iniciativa da Mercedes Benz de
criar o programa Voz Delas, a instituição decidiu construir um programa de
formação voltado especialmente para o público feminino com temas técnicos e
fundamentais, como mecânica, direção econômica, tecnologias embarcadas e
agregadas, legislação, segurança, pneus, prática supervisionada, entre outros.
Além de uma proposta pedagógica diferenciada, com
especialistas de cada área, Salete explica que é construído um ambiente
adequado, com equipe de acompanhamento durante o treinamento, restaurante e
alojamento próprio, além de laboratórios de mecânica, pneus, rastreamento e
veículos modernos com tecnologia de ponta. Ao término do curso tem o setor de
egressos que indica para o mercado de trabalho.
O programa já formou centenas de mulheres desde a 1ª
turma. Salete acrescenta que a Fabet conta também com apoio de empresas
para que apadrinhar o programa para as mulheres que desejam ingressar na
profissão. Reforça que as empresas podem preencher as vagas abertas para os milhares
de veículos parados nos pátios das empresas, com profissionais competentes,
seguras e eficientes, que cuidam da vida, do trabalho e do cliente, além de
serem uma grande esperança para a redução dos acidentes e a tão sonhada
humanização do trânsito.
Fonte: NTC&Logística / Foto: Divulgação/NTC