Publicado em: 28/03/2022
A BBC News
Brasil perguntou a economistas e, segundo eles, os preços praticados pela
Petrobras nas refinarias ainda estão defasados em relação ao mercado
internacional, mesmo com a queda de preços do barril de petróleo e a
valorização recente do real em relação ao dólar.
Assim, uma
redução de preços pela empresa é improvável neste momento, dizem os
especialistas.
Mas os
analistas também não acreditam em nova alta para corrigir a defasagem atual —
estimada entre 5% e 10%, ante quase 40% no início de março, quando o petróleo
chegou próximo a US$ 140 e o dólar ainda era negociado acima de R$ 5.
Quanto aos
efeitos na inflação em geral, há quem defenda que seria necessário um dólar em
queda por período mais longo para que a mudança do câmbio tenha efeitos em
itens como alimentos e bens industriais.
E mesmo quem
acredita que a queda já dura tempo relevante admite que, quando o dólar sobe,
os repasses são sempre mais rápidos do que quando ele cai.
"Existe
uma resistência maior dos empresários em dar descontos", observa Rafaela
Vitória, economista-chefe do Banco Inter.
Entenda o atual
cenário para os preços dos combustíveis, o que leva Brasil a ter gasolina mais
cara do que seus vizinhos da América do Sul e o que esperar da inflação em
geral, diante do atual cenário de queda do dólar.
Combustíveis
podem ficar mais baratos com queda do dólar?
Os
especialistas aqui são unânimes: neste momento, isso é improvável.
Étore Sanchez,
economista-chefe da gestora de recursos Ativa Investimentos, lembra que, em
primeiro lugar, é preciso diferenciar preços da Petrobras e preços dos
combustíveis na bomba.
A Petrobras
controla os preços nas refinarias, o começo da cadeia da gasolina que chega aos
postos. A gasolina vendida nas refinarias é de tipo A e não possui etanol. Já a
gasolina que se compra nos postos é de tipo C, com a adição de etanol feita
pelas distribuidoras.
Segundo
estimativa da Petrobras, o peso da gasolina comercializada pela empresa no
preço final do produto vendido ao consumidor é de cerca de 38%, com o restante
do preço formado pelo custo do etanol adicionado, impostos e a margem de
distribuição e revenda.
"A
gasolina A não tem ainda um potencial de queda, ainda vemos uma defasagem com
relação ao preço internacional, mesmo com o câmbio cotado abaixo de R$
4,80", diz Sanchez.
Segundo o
economista, a defasagem está atualmente em cerca de 7%, comparado a quase 40%
no pior momento desse ano, quando o barril de petróleo do tipo brent bateu em
R$ 139, maior valor em 14 anos.
No cálculo da
defasagem, os economistas comparam os preços da Petrobras com o valor da
gasolina no Golfo Pérsico, região onde é produzido o maior volume de petróleo
do mundo, fazendo a conversão cambial entre os dois valores.
A Petrobras
adotou o chamado PPI (Preço de Paridade de Importação) em 2016, após anos
praticando preços controlados, sobretudo no governo de Dilma Rousseff (PT). O
controle de preços era uma forma de mitigar a inflação, mas causou grandes
prejuízos à petroleira.
"Vemos uma
defasagem entre 5% e 10%, tanto no diesel, como na gasolina na média da última
semana. É uma defasagem relativamente baixa e que a Petrobras deve carregar ainda
por um tempo, para observar a tendência das duas variáveis [petróleo e
câmbio]", diz Rafaela Vitória, do Inter.
"O cenário
mais provável hoje é de uma estabilidade dos preços. Parando de subir, a
inflação tende a perder força, mas uma queda dos preços da gasolina na bomba,
com o petróleo ainda próximo dos US$ 110, é difícil", afirma a analista.
Quanto ao
pacote de medidas aprovadas em março no Congresso para tentar frear a alta dos
combustíveis, as leis que criam um fundo para estabilização de preços e
auxílios para categorias como motoristas de aplicativo, taxistas e entregadores
foram aprovadas no Senado, mas ainda precisam passar pela Câmara.
Já a mudança do
ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) sobre combustíveis,
aprovada nas duas casas, ainda está travada na etapa da regulamentação pelos
Estados, que devem perder bilhões em arrecadação com a medida.
Por que
gasolina é mais cara no Brasil do que nos vizinhos?
Segundo os
especialistas, são dois os motivos principais: a política de preços de cada
país e a carga de impostos.
Países que têm
gasolina muito mais barata do que a do Brasil, como Venezuela e Argentina,
praticam intervenções estatais nos preços, como subsídios pesados no caso
venezuelano e congelamento de valores, no caso argentino.
Conforme o
levantamento mais recente do projeto Global Petrol Prices, feito em 21 de março,
o Brasil tem atualmente a segunda gasolina mais cara entre as principais
economias sul-americanas, atrás apenas do Uruguai.
"Cada país
tem uma política de preço diferente e uma tributação diferente", diz Pedro
Rodrigues, sócio da consultoria CBIE Avisory e diretor do CBIE (Centro
Brasileiro de Infraestrutura).
"Na
Venezuela, por exemplo, a PDVSA (petroleira estatal venezuelana) praticamente
dá a gasolina para as pessoas de graça. Há um subsídio muito grande da estatal
ao combustível, ao ponto que o litro da gasolina na Venezuela custa mais barato
que um litro de água", observa.
"Já a
Argentina congelou preços para controlar a inflação, impedindo os agentes do
setor de reajustar valores", acrescenta.
Segundo
Rodrigues, no entanto, esse tipo de política é problemática. "Cria
artificialidades, leva a desabastecimento e gera incentivos econômicos
errados", afirma.
Rodrigues
observa que a tributação reflete diferentes entendimentos das sociedade sobre o
uso de combustíveis.
Nos Estados
Unidos, por exemplo, a taxação de combustíveis é baixa, por ser um país cuja
economia é muito centrada no automóvel, que definiu até mesmo o modelo de
urbanização das cidades. Já o Reino Unido tributa pesadamente os combustíveis
fósseis, a partir de um entendimento de que seu uso precisa ser desincentivado,
priorizando o transporte público.
"Política
tributária não tem pior ou melhor, é uma questão de escolha da sociedade",
diz Rodrigues.
Segundo ele, no
Brasil, uma reforma tributária poderia, por exemplo, reduzir a tributação do
diesel, gás de cozinha e energia elétrica, já que são bens essenciais.
E a inflação,
pode melhorar com a queda do dólar?
Aqui, os
economistas têm visões diferentes, mas acabam todos admitindo que o efeito para
a inflação deve ser pouco.
"No
curtíssimo prazo, o câmbio bate na inflação através dos combustíveis, devido à
política de paridade de preços", explica Sanchez, da Ativa Investimentos.
"Como não estamos vendo potencial para reajuste baixista [da gasolina],
mesmo com o alívio do câmbio, por essa via não deve haver impacto."
Já para as
cadeias onde o câmbio tem influência por caminhos mais longos — como a
importação de componentes que entram em produtos industriais e as commodities
agrícolas usadas na ração animal —, seria necessário um real valorizado por
mais tempo para que houvesse impacto favorável, avalia o economista.
Sanchez estima
que o dólar deve chegar ao fim de 2022 cotado a R$ 5,40, pois, na avaliação
dele, o nível atual, abaixo de R$ 5,80, não é compatível com os
"fundamentos" da economia brasileira, como a frágil situação das
contas públicas do governo federal.
Já Rafaela
Vitória, do Banco Inter, projeta um dólar a R$ 5 no fim do ano e acredita que o
câmbio já está em baixa a tempo suficiente para ter um efeito positivo na
economia, posto que ele fechou 2021 cotado a quase R$ 5,60 e acumula três meses
de queda, chegando a R$ 4,75 na sexta-feira (25/3).
"Podemos
falar num impacto positivo sim, é uma queda já de três meses", afirma.
"Mas vale
lembrar que, quando o dólar sobe, os repasses são mais rápido do que quando o
dólar cai. Para baixo, existe uma resistência maior. Historicamente, mesmo em
períodos de valorizações mais significativas e duradouras [do real em relação
ao dólar] o impacto é menor do que quando acontece uma depreciação do câmbio",
acrescenta a economista.
"É
doloroso subir preços, mas uma vez que subiu, dar descontos é ainda mais
difícil."
Fonte: BiodieselBR /
Foto: BBC NEWS / AFP