Publicado em: 08/05/2023
Caso a
proposta apresentada pelo governo para a nova regra de controle fiscal já
estivesse valendo no país desde 2001, os gastos públicos teriam, na média,
ficado menores ao longo desse período do que o tamanho que efetivamente
tiveram.
A composição
deles, porém, ficaria razoavelmente diferente.
Os
investimentos públicos em infraestrutura – que ganharam incentivos extras na
nova legislação – teriam tido, no geral, uma participação maior no bolo de
gastos.
Por outro
lado, todas as demais despesas, como as de saúde, educação, programas sociais e
salários, teriam que ter sido escolhidas para se encaixar nos limites que a
nova regra estipula para os gastos totais.
Essas são
algumas das principais conclusões de um ensaio feito pelo Centro de Pesquisa em
Macroeconomia das Desigualdades (Made) da Faculdade de Economia da Universidade
de São Paulo (FEA/USP).
Além disso,
o estudo também revela que, nos anos em que o PIB e a arrecadação do país
cresceram muito, até 2014, a taxa de crescimento dos gastos teria sido
consideravelmente menor do que as expansões promovidas pelos governos de Luiz
Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff nesse período.
Já nos anos
seguintes, quando a taxa de
crescimento despencou,
os gastos teriam crescido mais, graças aos mecanismos
anticíclicos que não existiam e que são incorporados à nova proposta.
Políticas
anticíclicas, em economia, são aquelas que ajudam as ações do governo a irem à
contramão da situação: economizar nos períodos de bonança e poder gastar mais
nos momentos de crise e de falta de dinheiro.
No segundo
mandato de Dilma, por exemplo, dividido com Michel Temer após o impeachment da
ex-presidente, o volume de gastos caiu em termos reais, o que a nova regra
impede de acontecer.
Além disso,
o estudo também revela que, nos anos em que o PIB e a arrecadação do país
cresceram muito, até 2014, a taxa de crescimento dos gastos teria sido
consideravelmente menor do que as expansões promovidas pelos governos de Luiz
Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff nesse período.
Já nos anos
seguintes, quando a taxa de
crescimento despencou,
os gastos teriam crescido mais, graças aos mecanismos
anticíclicos que não existiam e que são incorporados à nova proposta.
Políticas
anticíclicas, em economia, são aquelas que ajudam as ações do governo a irem à
contramão da situação: economizar nos períodos de bonança e poder gastar mais
nos momentos de crise e de falta de dinheiro.
No segundo
mandato de Dilma, por exemplo, dividido com Michel Temer após o impeachment da
ex-presidente, o volume de gastos caiu em termos reais, o que a nova regra
impede de acontecer.
Gastos menores
Nos 22 anos
analisados (2001-2022) pelo estudo, as despesas primárias efetivamente
realizadas a cada ano representaram 17,7% do PIB, na média.
Caso a nova
regra fiscal já valesse, essa proporção média teria sido, no máximo, de 16,4% –
cenário em que todos os governos tivessem aplicado a verba máxima permitida
para investimentos pela nova regra a cada ano.
Caso eles
mantivessem apenas a verba mínima que passa a ser exigida para os
investimentos, essa média seria substancialmente menor do que o que
efetivamente aconteceu, de apenas 13,8% do PIB.
Só em três
dos 22 anos (2003, 2011 e 2022) o gasto total teria ficado maior com a nova
regra do que o que de fato aconteceu – e já considerado o valor máximo para
investimentos.
Na maior
parte do tempo, porém, a compressão teria acontecido nas despesas gerais, como
salários, benefícios sociais e custeio, enquanto os investimentos em
infraestrutura ganhariam espaço.
“Esse
aumento dos investimentos previsto pelo novo arcabouço fiscal é bem alto; muda
bastante a composição dos gastos”, diz Clara.
“Eles
ficariam maiores mesmo em anos em que eles já foram altos, como nos primeiros
governos de Lula, enquanto outros benefícios, como aumento do salário mínimo ou
o Bolsa Família, talvez tivessem que ter sido diminuídos ou não teriam sido
possíveis se essa regra já fosse adotada desde 2001.”
O que dizem as regras
A proposta
de nova regra fiscal apresentada no fim de março pelo ministro da Fazenda,
Fernando Haddad, tem o objetivo de substituir o atual teto de gastos, em vigor
desde 2017, na missão de ser a principal legislação para controlar o
crescimento das despesas e da dívida pública.
Ela precisa
agora ser discutida e aprovada no Congresso Nacional.
A proposta
estipula um crescimento mínimo para
os gastos de 0,6% e máximo de 2,5% ao ano, já considerados aumentos acima da inflação.
São este
piso e este teto que compõem o componente anticíclico da proposta, já que
ajudam a evolução das despesas a não ficar tão dependente do que acontece com a
receita.
Dentro
dessas bandas, o reajuste anual dos gastos não poderá ser maior do que 70% do
crescimento das receitas, também consideradas as variações anuais acima da
inflação.
Com isso, as
despesas sempre cresceriam pelo menos a inflação e mais um pouco – diferentemente de como
funciona o teto de gastos, que bloqueia qualquer crescimento acima da inflação e, na prática,
mantém as despesas congeladas em termos reais.
Foram essas
bandas que o estudo da USP aplicou à arrecadação que o governo teve de fato a
cada ano desde 2001, e que fizeram com que, na maior parte deles, as despesas,
limitadas à fórmula dos 70% ou ao máximo de 2,5%, ficassem menores do que o que
efetivamente aconteceu.
“Em grande
parte do tempo analisado, a arrecadação cresceu mais do que 5%”, diz Clara,
“então os gastos teriam crescido apenas o limite de 2,5%”.
Piso para investimento
Em paralelo,
o novo arcabouço também estipula metas anuais para o resultado primário, ou
seja, para o saldo entre a arrecadação e os gastos, e que deverão ser
perseguidas pelo governo.
Nos anos em
que esta sobra de dinheiro for maior do que a meta estipulada, a proposta prevê
que o dinheiro excedente seja direcionado para investimentos nos anos
seguintes.
Além disso,
a proposta também cria um piso para os investimentos públicos, que não poderão
nunca ser reduzidos: eles deverão sempre replicar o nível do ano anterior
corrigido, pelo menos, pela inflação.
Eles
partirão dos R$ 71 bilhões em 2023 – valor garantido na virada do ano pela PEC
do Estouro, que adicionou despesas
à proposta de orçamento para o ano.
Para se ter
uma ideia, em 2022, a verba para os investimentos públicos, comprimida pela
necessidade de outras despesas, tinha afundado a pouco mais de R$ 40 bilhões, nos menores níveis da
história e abaixo do
nível mínimo estimado por economistas para pelo menos fazer a manutenção das
infraestruturas que o país já possui.
Se replicado
ao orçamento público desde 2001, esse piso de R$ 71 bilhões já é maior do que o
que foi investido em praticamente todos os anos do período, já considerados
valores atualizados pela inflação.
Apenas em
seis dos últimos 22 anos, de 2010 a 2014, o investimento público realizado foi
maior do que o piso que a nova proposta impõe.
Fonte: CNN/
Foto: Diogo Zacarias/MF