Publicado em: 07/06/2022
A celebração em pleno Palácio
Iguaçu, sede do governo do Estado, em Curitiba, não foi à toa. Um ano depois de
obter o reconhecimento internacional como área livre de febre aftosa sem
vacinação, o Paraná agora colhe os frutos de esforços realizados ao longo dos
últimos 50 anos e que culminaram com a estruturação de um sistema sanitário
robusto. Nessa nova fase, o Estado já recebe investimentos bilionários e tem
perspectivas de avançar em direção a mercados internacionais mais sofisticados,
que pagam mais por produtos advindos de áreas certificadas. O futuro é
promissor.
Esse cenário foi delineado no
evento realizado no dia 31 de maio, em comemoração ao marco de um ano da
certificação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). No palco,
autoridades como o governador Carlos Massa Junior; o presidente do Sistema
FAEP/SENAR-PR, Ágide Meneguette; o secretário de Estado de Agricultura e
Abastecimento, Norberto Ortigara; o presidente da Agência de Defesa
Agropecuária do Paraná (Adapar), Otamir Martins, entre outras autoridades
políticas e representantes de entidades do setor agropecuário, evidenciaram os
prognósticos positivos para o Estado.
“Para um futuro próximo, os
ganhos de nosso esforço sanitário já estão claramente definidos, com as plantas
agroindustriais que deverão entrar em funcionamento, a ampliação das já
existentes e com os investimentos que os produtores rurais fizeram e estão
fazendo para abastecer esse parque fabril”, disse Meneguette, que também
apontou a necessidade de se manter firme a vigilância. “Isso é uma vitória de
todos nós e, evidentemente, traz uma responsabilidade muito maior: manter a
conquista é até mais difícil do que a própria conquista”, acrescentou.
Para o governador Carlos Massa
Ratinho Junior, o reconhecimento internacional inaugurou uma nova etapa
produtiva, que colocou o Paraná em pé de igualdade com os maiores produtores
agropecuários do mundo e com condições de disputar os mercados mais
sofisticados. Agora, no entanto, o governador vislumbra um passo muito mais
ousado.
“A gente não quer ser apenas mais
um grande produtor de alimentos. Nós queremos ser o supermercado do mundo.
Queremos industrializar tudo o que nós produzimos. O objetivo é que tudo o que
temos de matéria-prima passe por uma grande fábrica e que possamos entregar
isso embalado, refrigerado para o planeta”, disse o governador. “O
reconhecimento internacional foi um trabalho estratégico que tem muito do passado,
mas também muito de presente, olhando para o futuro”, definiu.
Alinhado à visão do governador, o
apontou que, além de manter a vigilância sanitária, o Paraná precisa centrar
esforços na conquista de novos mercados internacionais. Ele adiantou que o Estado
já tem reuniões agendadas para finalizar protocolos de comercialização com o
Japão e a Coreia do Sul. Em novembro, uma missão empresarial paranaense deve
viajar ao Japão, para negociar a venda de carnes bovina e suína. Todo esse
esforço comercial só se tornou possível por causa da certificação
internacional.
“Nós não trabalhamos para ter um
selo na parede, um certificado bonitinho. Trabalhamos para gerar oportunidade
de emprego, renda e agregar valor ao que produzimos”, enfatizou. “Volume [de
produção], nós temos. Qualidade, nós temos e vamos continuar melhorando. Temos
a sanidade reconhecida e mantida. Também temos preço. Agora, falta-nos
exercitar o papel de caixeiro-viajante, com a maletinha debaixo do braço, com o
bom propósito de disputar positivamente os mercados internacionais”, avaliou.
Investimentos
Parte significativa dos aportes
catapultados pelo novo status sanitário vem das cooperativas. Só neste ano, o
setor cooperativo vai investir R$ 4,2 bilhões. Deste total, R$ 700 milhões
serão destinados a construção ou ampliação de plantas de abates de suínos. Além
disso, o segmento deve destinar R$ 900 milhões à infraestrutura de armazenagem
e recepção de agroindústrias e R$ 400 milhões em indústrias de ração animal.
Tudo isso se soma a outros investimentos que já vinham sendo feitos ao longo
dos últimos anos, quando o Estado ainda se preparava para obter o
reconhecimento internacional pela OIE.
“Nós replanejamos atividades e
vamos investir”, garantiu o presidente do Sistema Ocepar, José Roberto Ricken.
“Foram abertas novas relações comerciais, porque de nada adiantaria se não
conseguíssemos capitalizar [o reconhecimento internacional] com resultado para
os produtores e para a sociedade do Paraná. E isso vem acontecendo. Vamos
crescer juntos”, apontou.
O novo momento sanitário foi
decisivo, por exemplo, para que um novo grupo empresarial – o Agro Laranjeiras
– se instalasse no Paraná. A empresa vai investir R$ 380 milhões na construção
de uma maternidade de leitões em Laranjeiras do Sul, na região Centro-Sul do
Estado. A perspectiva é de que o empreendimento produza 20 mil leitões por
semana, consumindo 3,5 milhões de sacas de milho e 1,2 milhão de sacas de soja.
Tudo isso deve gerar mais de 200 empregos diretos e 800 indiretos,
impulsionando a geração de renda na região.
“E por que viemos para cá? Porque
o Paraná é o Estado que mais está crescendo e queremos participar disso.
Escolhemos para estarmos em uma área certificada, livre de febre aftosa”, disse
o acionista e desenvolvedor do projeto da Agro Laranjeiras, Jorge Munari. “Ao
atingir a qualidade sanitária e manter um sistema sólido de vigilância, isso só
tende a crescer”, avaliou.
A certificação internacional
também foi fator preponderante para que a Agroceres Pic – líder no mercado de
genética de suínos – decidisse investir no Paraná. A empresa vai construir um
núcleo genético em Paranavaí, no Noroeste do Estado, em um complexo com três
unidades, em uma área de 85 mil metros quadrados. A previsão é que a primeira
unidade seja inaugurada ainda em junho deste ano. O empreendimento terá
capacidade de alojar 3,6 mil fêmeas de elite, produzindo 110 mil suínos por
ano, de olho também no mercado internacional. Segundo a empresa, será a maior
unidade da América do Sul.
“Sem esse status sanitário, não
seria possível fazer esse investimento, que é o mais robusto da nossa história.
Escolhemos a região justamente pela biosseguridade elevada. Será uma unidade
que vai exportar animais para a América e outros continentes, caso tenhamos
esses acordos bilaterais”, anunciou o veterinário Gustavo Simão, que
representou a Agroceres Pic no evento.
Presidente da Comissão de
Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Assembleia
Legislativa do Paraná (Alep), o deputado estadual Anibelli Neto louvou a nova
fase da agropecuária paranaense, destacando a importância do setor como base de
crescimento da economia como um todo.
“Na campanha, quando o governador
falou que o milho viraria nuggets, alguns não entenderam. Hoje está claro: o
milho vira ração, a ração alimenta o frango, que depois pega mais valor
agregado e é processado, virando nuggets. Isso é visão estratégica”, discursou
o parlamentar.
Líder absoluto
Apesar dos impactos provocados
pela pandemia do novo coronavírus nos últimos anos, o Paraná consolidou sua
liderança como maior fornecedor de proteína animal do Brasil. Responsável por
um terço da produção de frangos de corte do país, o Estado ampliou sua
participação para 4,8 bilhões de toneladas em 2020 – expansão de 8% em relação
ao ano anterior. Na suinocultura, o avanço na produção foi de 9%, ultrapassando
1 milhão de toneladas produzidas. Com isso, o Paraná responde por 20% do
mercado de suínos, atrás apenas de Santa Catarina.
Na piscicultura, o Paraná também
está consolidado na liderança, com 22% da produção nacional de tilápias (188
mil toneladas). E a projeção para os próximos três anos é de expansão a um
índice de 20% ao ano. Se esse cenário se concretizar, o setor deve chegar a
2025, atingindo os R$ 2 bilhões no Valor Bruto de Produção (VBP), conforme
estimativa do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado de
Agricultura e Abastecimento (Seab). Na bovinocultura de corte, o Paraná se
mantém em quarto colocado, com 1,2 milhão de toneladas abatidas.
Esforços conjuntos
A consolidação do sistema
sanitário do Paraná é resultado de uma extensa trajetória, que congregou
esforços das esferas pública e privada, em torno do objetivo comum de tornar o
Estado uma referência em sanidade animal. Nesse sentido, o Sistema
FAEP/SENAR-PR foi pioneiro, ao investir em diferentes frentes que tornaram a
sanidade agropecuária uma prioridade aos diferentes governos que passaram pelo
Palácio Iguaçu. Ao mesmo tempo, a entidade auxiliou em ações que exigiram
mobilização, coordenou missões de lideranças políticas e administrativas e
promoveu viagens para técnicos e produtores, fomentando a cultura da
importância da sanidade animal para o agronegócio.
Um dos destaques dessa
mobilização foi a criação do Fundo de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do
Paraná (Fundepec), que mantém recursos para o estabelecimento de políticas ou
para indenizar produtores caso sejam necessários abates sanitários
emergenciais. Outro ponto importante foi a sanção da Lei 11.504/96 – a chamada
Lei da Sanidade –, que permitiu um aperfeiçoamento e modernização das normas e
regras, facilitando ao produtor cumprir as reponsabilidades na manutenção
sanitária.
Paralelamente, o SENAR-PR passou
a colaborar de forma efetiva na formação técnica de profissionais. Foram
centenas de treinamentos e capacitações, contribuindo de forma substancial para
a formação de recursos humanos da defesa sanitária paranaense, além de
contribuir na formação da consciência sanitária dos produtores. Com esses
esforços coletivos, o número de casos de febre aftosa no Paraná chegou a zero
ainda em 1996.
Na última década, esse processo
ganhou fôlego, mirando a conquista do reconhecimento como área livre de febre
aftosa sem vacinação. A estruturação sanitária incluiu a reativação dos
Conselhos de Sanidade Agropecuária (CSAs) e instalação de Postos de Fiscalização
de Transporte Animal (PFTA), nas divisas do Paraná com outros Estados.
Adapar completa 10 anos
O evento também marcou os 10 anos
de criação da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), autarquia
estadual que tem por finalidade fiscalizar e promover a inspeção sanitária dos
produtos de origem animal, além de fomentar a prevenção, o controle e a
erradicação de doenças nas cadeias animal e vegetal.
O presidente da entidade, Otamir
Martins, enalteceu seus servidores, que estão “24 horas por dia, sete dias por
semana, trabalhando na vigilância ativa para preservar esse status sanitário”.
Esses profissionais, segundo o dirigente, têm relação direta com o
desenvolvimento econômico proporcionado pelo reconhecimento internacional.
“A sanidade é um ativo para os
produtos agropecuários paranaenses e, com este atributo, podemos inserir o
nosso agro nos mercados que melhor remuneram. O avanço neste um ano somente foi
possível pela união de esforços de serviço público e os órgãos da iniciativa
privada”, apontou Martins. “Estamos construindo o futuro”, concluiu.
Fonte: O Presente Rural / Foto: divulgação/O
Presente Rural