Publicado em: 18/04/2022
A guerra entre
Ucrânia e Rússia afetou os preços de uma série de produtos, entre eles
os fertilizantes,
com um impacto ainda maior para países que importam a maior parte do que
consomem, caso do Brasil. Essa alta acaba refletindo nos alimentos, piorando o
quadro inflacionário.
Atualmente,
cerca de 85% dos fertilizantes usados no país são importados, e dados da
consultoria Globalfert apontam que 23% desse total vem da Rússia. A Ucrânia
também é um fornecedor relevante, assim como Belarus, que também
está envolvido no conflito, piorando o cenário.
Especialistas
ouvidos pelo CNN Brasil Business apontam, porém, que por mais que o
setor de fertilizantes brasileiro deva enfrentar dificuldades no curto prazo, a
guerra gerou uma oportunidade de crescimento ao deixar à tona uma
vulnerabilidade do país.
Cenário
brasileiro
Diretor-executivo
do Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes
(Sinprifert), Bernardo Silva, afirma que o setor de fertilizantes no Brasil
possui hoje uma capacidade instalada de 13,95 milhões de toneladas por ano, mas
produz efetivamente cerca de 6 milhões.
Segundo ele,
existem alguns fatores que explicam essa diferença, mas o principal é a falta
de competitividade dos projetos nacionais em relação ao exterior.
“Enquanto temos
no país um ambiente institucional competitivo que privilegia e subsidia
importação, as empresas alocam seus recursos seguindo esse cenário de
competitividade e rentabilidade”, diz.
As grandes
produtoras de fertilizantes são multinacionais e, portanto, alocam recursos
para produção em determinados países de acordo com o grau de rentabilidade. Se
compensar mais produzir fertilizantes em um país e então exportar para o
Brasil, esse é o caminho seguido.
Silva também
cita outras questões, como custos de produção e de maquinário elevados com
problemas de logística, preço alto de energia elétrica —essencial
na produção de fertilizantes— e um “olhar de curtíssimo prazo” que privilegiou
e incentivou a importação por
ser mais barata.
Juliana Lemos,
analista-chefe do Globalfert, afirma que existem dois tipos de empresas no
setor de fertilizantes. As produtoras, que se encarregam das matérias-primas,
geralmente nutrientes como nitrogênio, potássio e fósforo, usadas em
fertilizantes. E as montadoras, que compram esses nutrientes prontos e “montam”
os fertilizantes. É comum também que existam empresas que realizem as duas
atividades.
Em 2021, o
total de importação de fertilizantes, prontos ou para serem misturados, foi de
34,7 milhões de toneladas, cerca de 85% do total negociado, o que indica a
força das montadoras no país.
“O Brasil é uma
potência agrícola, então usamos a maioria dos tipos de fertilizantes que
existem”, diz. O tipo depende principalmente das características do solo e da
cultura que será plantada.
Lemos diz que o
Brasil produz principalmente potássio, usado em uma série de fertilizantes, mas
que mesmo assim não é o suficiente para atender à grande demanda do agronegócio.
Um estudo do
Globalfert aponta que, em 2021, pouco mais de 70% do mercado de fertilizantes
NPK (que contém nitrogênio, fósforo e potássio) do Brasil era controlado por
três empresas.
A maior, com
28%, é a Mosaic, originária dos Estados Unidos.
Em seguida vem a Yara, empresa de origem europeia, com 23%, e a Fertipar, com
22%, uma das poucas grandes empresas do setor que ainda é nacional, fundada
no Paraná.
O peso de
empresas estrangeiras vai além das duas maiores do setor. A suíça Eurochem, por
exemplo, adquiriu entre 2020 e 2021 duas grandes companhias nacionais, a
Fertilizantes Tocantins (13%) e a Heringer (4%). Ainda há a Cibra, com 5% de
participação, e que faz parte do grupo norte-americano Omimex.
Segundo Lemos,
as aquisições recentes da Eurochem tornaram o mercado ainda mais concentrado, o
que é uma característica comum em todo o mundo devido ao alto investimento que
a obtenção de matérias-primas demanda.
Das três maiores empresas, a Mosaic e a Yara atuam como misturadoras e produtoras, enquanto a Fertipar é apenas misturadora. Ao todo, são 513 unidades de mistura espalhadas pelo Brasil.

Para Juliana
Lemos, a dependência de importações do Brasil é um “problema antigo”. “Teve
influência do baixo investimento em indústria ao longo de muitos anos, falta de
incentivo, não ter direcionamento claro até por parte de governos sobre a
importância no Brasil”.
“Temos produção
agrícola há muito tempo, mas o crescimento exponencial foi rápido e recente,
não estávamos preparados para toda essa demanda”, acrescenta.
Efeitos da
guerra
Para o diretor
do Sinprifert, a guerra na Ucrânia atingiu um setor já pressionado no Brasil,
com margens “apertadíssimas”. Ele avalia que o aumento de preços dos
fertilizantes não deve se traduzir em um lucro maior porque os custos também
aumentaram, em especial de energia e transporte devido às altas do petróleo e
do gás
natural.
Ele aponta,
porém, uma possibilidade de aumento de mercado, ou seja, aumentar a produção e
se aproximar mais dos 13 milhões de toneladas potenciais, já que o cenário deve
gerar uma redução nas importações, abrindo janelas de oportunidades.
A combinação de
todos esses fatores deve levar a um “aumento de participação, mas não de
receita”.
Juliana Lemos
avalia que a demanda do agronegócio por fertilizantes está bastante favorável
no Brasil, o que é positivo, mas também gera um “desafio monstruoso” de manter
o fornecimento de matérias-primas para atender ao setor.
Isso exigirá a
criação de novos contratos, rotas de transporte e também novos fornecedores,
mas atualmente são poucos países com capacidade para expandir a produção e
atender mais mercados.
“A expectativa
é de mais vendas, mas é um grande desafio. Vai demandar estratégias certeiras
para garantir o fornecimento”, diz.
Ao mesmo tempo,
ela acredita que a guerra deve fortalecer uma tendência de diversificação de
fontes de fertilizantes, com aumento de alternativas como orgânicos e
organo-minerais, mas não a ponto de suprir toda a demanda do agronegócio
brasileiro.
Bernardo Silva
afirma que o cenário atual de elevação de preço dos fertilizantes, que na
verdade começou na pandemia com
o descompasso entre oferta e demanda, não é problema real do setor, mas ajudou
a escancará-lo.
“O setor ficou
no olho do furacão, mas há décadas já falávamos sobre isso. A resolução do
curtíssimo prazo é algo que um setor como o nosso não olha porque não é o
problema real. Só vai ter um equilíbrio saudável se começar a no curtíssimo
prazo implementar medidas de longo prazo” - Bernardo Silva, diretor-executivo
do Sinprifert.
“Se quiser
resolver só essa questão pontual, é só perpetuar, só irá atrás de outros
fornecedores e diluir esse risco [de quedas no fornecimento]”, diz.
Nesse sentido,
ele vê o lançamento do Plano
Nacional de Fertilizantes pelo governo federal como um “passo
realista” em direção a uma mudança verdadeira para o setor.
Potencial
A
analista-chefe do Globalfert afirma que ainda é difícil entender qual é o
potencial real do setor de fertilizantes no Brasil pensando na expansão de uma
produção nacional, já que faltam estudos e um mapeamento detalhado de reservas
minerais.
Ela avalia que
o plano divulgado pelo governo “é
para daqui a 30 anos, e não deve dar independência total, mas pode levar a uma
mobilização maior”.
Segundo
Bernardo Silva, o plano trouxe um diagnóstico aprofundado da situação atual do
setor, com metas para o médio e longo prazo. O objetivo é reduzir a dependência
brasileira de importações para cerca de 45% ou 50% do total até 2050.
Ele diz que
cada um dos três macronutrientes acabou tendo uma projeção diferente de alta de
produção, que leva em conta as disponibilidades de obter as matérias-primas no
Brasil. No caso dos nitrogenados, por exemplo, a importação poderia ser
reduzida de 93% para 51%, e no caso dos fosfatados, de 78% para 5%.
Para atingir
isso, ele considera que o principal é “termos um ambiente de isonomia, um campo
de jogo nivelado entre importação e produção nacional. Hoje não tem porque há
subsídios, incentivos e desoneração à importação”.
Como exemplo,
ele cita a cobrança de ICMS sobre
fertilizantes, que é praticamente isenta para importados e de cerca de 8,4%
para a produção nacional. Também defende medidas como linhas de financiamento
específicas para o setor, com taxas mais competitivas, e a implementação de
medidas como o Marco do Gás para
reduzir o preço da commodity.
“É uma questão
de resolver infraestrutura e logística, assim como acesso e disponibilidade de
matérias-primas. Dar mais agilidade nos processos de licenciamento ambiental,
projetos hoje parados nessa etapa, e não é diminuir exigências, é melhorar a
burocracia”.
“Um olhar de
curtíssimo prazo permeou as políticas públicas nos últimos 25 anos, sempre
olhou pelo caminho mais curto e fácil, de importar, e agora vemos que isso não
trouxe os resultados esperados”, afirma.
Fonte: CNN Brasil
/ Foto: Scott Audette/Reuters