Publicado em: 29/10/2026

A Coalizão para a Descarbonização dos Transportes, movimento multissetorial que reúne mais de 120 associações, empresas, poder público e academia, estruturou a agenda de implementação até 2030 e definiu 15 alavancas prioritárias para reduzir as emissões do setor. Com responsabilidades pactuadas entre os participantes, o foco será atuar sobre os obstáculos à adoção das soluções, articular os meios para viabilizá-las e dar transparência aos resultados.

A nova etapa da iniciativa foi apresentada nessa segunda-feira (26) ao presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago. As organizações participantes da Coalizão também definiram cerca de 40 habilitadores (como são chamados os requisitos necessários para colocar as soluções em prática) e mais de 100 indicadores para monitorar seu andamento.

Liderada pelo Sistema Transporte, pelo CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), pela MOTIVA e pelo Observatório Nacional de Mobilidade Sustentável do Insper, com apoio técnico do Boston Consulting Group (BCG), a Coalizão para a Descarbonização dos Transportes abrange seis frentes: transportes rodoviário, ferroviário, aquaviário, aeroviário, mobilidade urbana e infraestrutura e transversalidade.

“Modernizar os transportes é fundamental para o Brasil ganhar competitividade. Uma logística mais eficiente, com maior participação de ferrovias, novas tecnologias e combustíveis de menor emissão, beneficia toda a economia. O papel da Coalizão é ajudar a criar as bases para que essas soluções avancem, reunindo empresas e outros atores em torno de desafios que nenhum segmento consegue resolver sozinho”, afirma Marina Grossi, presidente do CEBDS e enviada especial do setor empresarial para a COP30.

“A Coalizão para a Descarbonização dos Transportes avançou para a estruturação de uma governança robusta e perene entre seus integrantes, definição das alavancas prioritárias e construção da ferramenta de monitoramento para transformar o plano de ação em resultados concretos para a transição setorial à economia de baixo carbono. E vemos diversas iniciativas já nascendo a partir dessa articulação entre os diferentes atores, como o consórcio do e-Dutra, que visa viabilizar a infraestrutura de recarga para caminhões elétricos ao longo da rodovia Presidente Dutra, um dos principais eixos logísticos do país”, destaca Raquel Cardoso, vice-presidente de Pessoas, Sustentabilidade e Excelência da MOTIVA.


Alavancas para acelerar a descarbonização nos transportes brasileiros

As 15 alavancas prioritárias, selecionadas entre as 90 iniciativas mapeadas no plano de ação, combinam mudanças na matriz de transportes, adoção de tecnologias e combustíveis de menor emissão e ganhos de desempenho operacional. As projeções da Coalizão dimensionam essa transformação: até 2050, a participação de ferrovias e hidrovias no transporte de cargas poderá passar de cerca de 30% para 55%; os veículos leves eletrificados poderão superar metade da frota; e o consumo anual de biocombustíveis poderá alcançar, aproximadamente, 55 bilhões de litros.

O crescimento da participação ferroviária e hidroviária depende de investimentos na expansão da infraestrutura e na integração entre os diferentes modos de transporte. Essa mudança se soma a medidas específicas para melhorar as operações, como a otimização de rotas e frotas de trens e a redução do tempo de espera e de atracação das embarcações.

Na eletrificação, a agenda aponta uma trajetória de difusão dos veículos leves eletrificados, de menos de 1% da frota na base de referência para mais de 50% até 2050. Para o transporte de passageiros, a projeção inclui cerca de 300 mil ônibus elétricos em circulação naquele ano. Concretizar essa transformação exige estender a infraestrutura de recarga, adequar a rede elétrica e tornar o custo de aquisição e operação dos veículos mais acessível.

Os biocombustíveis também têm papel central, com perspectiva de salto do consumo anual de cerca de 30 bilhões para 55 bilhões de litros até 2050. As prioridades abrangem o aumento do uso de etanol e de outros biocombustíveis no transporte rodoviário, sua adoção em operações ferroviárias e aquaviárias e a intensificação do uso de combustível sustentável de aviação produzido a partir de biomassa, o Bio-SAF.

Na aviação, a agenda também contempla melhorias na gestão operacional e nas trajetórias de pouso e decolagem. Na mobilidade urbana, inclui otimização de rotas, reforço do transporte coletivo sustentável e adoção de soluções com emissões veiculares próximas de zero.

Ao lado das transformações esperadas para 2050, a Coalizão prioriza medidas com potencial de gerar resultados no curto prazo, como renovação de frotas, menor consumo de combustível e mais eficiência nas operações logísticas. 

Para Vinicius Ladeira, diretor adjunto nacional do SEST SENAT e líder do projeto Transporte e a COP31, o Brasil tem oportunidades importantes para progredir na descarbonização, considerando-se a diversidade de sua matriz de transporte, o potencial dos biocombustíveis e a possibilidade de ampliar o uso de modais mais eficientes. 

“Para isso, é fundamental integrar planejamento, investimentos e inovação, criando um ambiente favorável para reduzir as emissões sem comprometer a eficiência logística e a competitividade do setor. Felizmente, já temos observado uma atuação das empresas do setor, com medidas concretas, metas, indicadores e responsabilidades bem definidos”, aponta o diretor.


Cerca de 40 ações habilitadoras para viabilizar a implementação

A agenda identifica as exigências técnicas, econômicas e de infraestrutura necessárias para que as soluções ganhem escala. Na eletrificação, isso inclui aumentar a oferta de veículos com custo total de propriedade competitivo, adensar a rede de recarga e realizar as adaptações cabíveis na infraestrutura elétrica.

Para os biocombustíveis, os desafios incluem sinalizar demanda para estimular o incremento da produção, melhorar a logística de distribuição e assegurar a compatibilidade dos combustíveis com os motores e suas diferentes aplicações.

A infraestrutura também ocupa lugar central: elevar a capacidade e os acessos a portos e terminais, expandir a malha ferroviária e fortalecer a integração entre os modos são pilares para a mudança da matriz de transporte.

Há ainda medidas voltadas à produtividade das operações, como estimular a retirada de veículos mais antigos e poluentes de circulação, encurtar o tempo de espera das embarcações e aprimorar os procedimentos de operação de trens e aeronaves. A mobilização de recursos e investimentos é um pressuposto comum à evolução dessas frentes.


Monitoramento público para orientar a atuação conjunta

O acompanhamento será centralizado no Núcleo Intersetorial do Clima, com mais de 100 indicadores dedicados à agenda de transporte. A ferramenta permitirá acompanhar tanto o progresso das alavancas quanto o estágio dos habilitadores que sustentam sua efetivação, apoiando a identificação de entraves e a definição das prioridades de atuação conjunta.

Estima-se que o setor represente cerca de 11% das emissões brasileiras. Em um cenário sem alterações, as emissões anuais poderiam crescer 63%, passando de aproximadamente 260 milhões de toneladas de CO2 equivalente, em 2023, para 424 milhões em 2050. O conjunto das 90 alavancas mapeadas tem potencial para cortar em cerca de 68% as emissões projetadas para aquele ano, sendo que três alavancas concentram a maior parte desse potencial: rebalanceamento da matriz de transporte, com maior participação dos modais ferroviário e hidroviário; ampliação do uso de biocombustíveis; e eletrificação de frotas em larga escala.

A Coalizão para a Descarbonização dos Transportes integra a Coalizão Brasil pela Transição Climática, coordenada pelo CEBDS, que mobilizou mais de 270 organizações em setores estratégicos da economia. Ao conectar prioridades setoriais, viabilidade prática de implementação e indicadores de acompanhamento, a iniciativa busca contribuir para a redução de emissões e para ganhos de eficiência e competitividade no país.

“A descarbonização dos transportes não é apenas um desafio tecnológico ou energético. É, sobretudo, um desafio de planejamento, de políticas públicas e de transformação da maneira como movimentamos pessoas e mercadorias no Brasil. Não basta substituir combustíveis ou eletrificar frotas. Precisamos ampliar a participação do transporte coletivo, fortalecer os modos ativos, melhorar a eficiência logística e criar condições para que as alternativas mais sustentáveis sejam também as mais atrativas. A grande contribuição desta Coalizão é transformar esse entendimento em uma agenda concreta, com prioridades, responsabilidades e indicadores capazes de orientar decisões e medir resultados. O Brasil tem uma oportunidade extraordinária de fazer da descarbonização um instrumento de desenvolvimento econômico, melhoria da qualidade de vida e redução das desigualdades”, garante Sérgio Avelleda, coordenador do Observatório Nacional de Mobilidade Sustentável do Insper.


Fonte: Agência CNT Atual 

Coalizão de Transportes estrutura agenda até 2030 e define prioridades para descarbonização do setor