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Para evitar fraudes, concessão de rodovias deve mudar
O governo decidiu fazer mudanças drásticas no modelo de
concessão de rodovias, com o intuito de tornar os projetos mais alinhados com
as demandas de órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU), e
viabilizar os leilões ainda neste ano. Com as medidas, o que se pretende é
eliminar brechas que permitem superfaturamento nas obras, golpes que costumam
ser dados por meio de aditivos contratuais.O jornal ‘O Estado de S. Paulo’ teve acesso exclusivo às
propostas já desenhadas pelo governo e pela Agência Nacional de Transportes
Terrestres (ANTT). Pelas regras, fica proibida a inclusão de novos
investimentos para melhoria e ampliação de capacidade da rodovia nos primeiros
cinco anos da concessão. Essa proibição também valerá para os últimos cinco
anos dos contratos, os quais costumam ter validade de 30 anos. Nos dois
períodos, o concessionário só poderá executar aquilo que já estava previsto no
contrato.Hoje não há essas proibições de prazos e as obras são
executadas conforme demandas apresentadas pelas empresas ou pela ANTT.
Normalmente, a realização de investimentos não previstos tem como consequência
uma elevação nas tarifas de pedágio, para restabelecer o equilíbrio financeiro
do contrato.O governo também decidiu proibir a inclusão de investimentos
fora das revisões quinquenais (a cada cinco anos) dos contratos. A ideia é que
a concessão se concentre apenas em seu “estoque de obras” já incluso na
concessão. Novas intervenções só poderão ser apresentadas após o término desse
estoque.Grandes obras não previstas originalmente no contrato terão
de ser discutidas. A construção de contornos urbanos, por exemplo, ficará
condicionada à comprovação das vantagens dessa obra em relação a outras e só poderá
ser realizada após a realização de audiência pública, processo que hoje não
existe.Foi decidido ainda que o aumento das tarifas de pedágio para
bancar obras como a construção de uma pista adicional só poderá ocorrer depois
que o projeto for entregue pela concessionária. Hoje esse custo é cobrado
conforme o avanço do empreendimento, embutido na tarifa de pedágio do usuário
da rodovia.A renovação das concessões também foi deixada de lado. Os
novos editais vão permitir que seja feita a prorrogação contratual por até
cinco anos após o término da concessão, prazo que poderá chegar a, no máximo,
dez anos, e por uma única vez, para fins de reequilíbrio financeiro da
concessão por conta da execução de novas obras. ‘Engessados’A reportagem repercutiu cada uma das propostas com a
Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), que representa as
empresas que atuam no setor. Na avaliação de César Borges, presidente da
entidade, as medidas indicam que o governo se dispõe a “engessar” os projetos. “Não
sabíamos desses detalhes todos. O que podemos dizer, com base nessas
informações, é que isso vai engessar o contrato. Significa retirar a autonomia
da ANTT e reconhecer que há desconfiança sobre sua capacidade de fiscalizar e
tomar decisões técnicas”, comentou.O interesse das empresas nas novas propostas, no entanto,
segue inalterado, de acordo com Borges, que foi ministro dos Transportes no
governo da ex-presidente Dilma Rousseff. “As empresas do setor seguem
interessadas nos projetos e respeitarão as regras dos contratos. Agora, quem
vai sofrer com isso é o usuário, nos casos em que obras necessárias apareçam,
mas não possam ser executadas por causa de regras desse tipo.”O presidente da ABCR afirmou que, sobre o pagamento de obras
adicionais somente após a sua conclusão, não há problemas para as empresas,
“desde que o reequilíbrio dos contratos efetivamente ocorra”. Ele também
minimizou preocupações com a prorrogação de até dez anos para as concessões. “É
um prazo razoável para que os investimentos sejam amortizados.” AmpliaçãoNos primeiros 5 e nos últimos 5 anos do contrato a
concessionária só poderá fazer obras previstas para melhoria da rodovia PedágioO aumento nas tarifas de pedágio para bancar obras na
estrada só poderá ocorrer depois que o projeto for entregue pela
concessionária. Relicitação será regulamentada nos próximos diasSob pressão depois que a Aeroportos Brasil Viracopos (ABV)
entrou com pedido de recuperação judicial, o governo anunciou ontem que
divulgará, “nos próximos dias”, um decreto regulamentando a relicitação.
Trata-se de instrumento criado para socorrer concessionárias com dificuldades
de honrar seus compromissos com o governo, como Viracopos. Até hoje, um ano e
meio depois de criada, a medida não foi aplicado por falta da regulamentação.A ABV batalha há nove meses pela relicitação. Em abril,
recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para obter uma resposta do governo.
Com uma decisão desfavorável da corte, ingressou com o pedido de recuperação
judicial esta semana.A concessionária de rodovias Via 040, que administra o
trecho da BR-040 entre Brasília e Juiz de Fora (MG), também é candidata à
relicitação, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres. Outra que
pediu para usar o mecanismo foi a Rodovia do Aço, que administra 200 km da
BR-393 no Rio.A relicitação permite que uma concessionária com problemas
devolva o negócio para que ele seja leiloado e entregue a outro grupo
econômico. Até que seja escolhido um sucessor, a concessionária fica à frente
do negócio, numa espécie de “operação padrão”.“O objetivo é manter a continuidade dos serviços prestados
pelas concessionárias enquanto o governo faz nova licitação”, disse o ministro
dos Transportes, Valter Casimiro, após reunião com representantes do
Planejamento e o presidente do BNDES, Dyogo Oliveira.
Fonte: O Estado de S. Paulo.