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Retrato da crise: custo com logística aumentou R$ 20 bilhões nos últimos três anos
Lata do lixo. Esse é o destino de quase mil toneladas de
gêneros alimentícios que, todos os meses, chegam às Centrais de Abastecimento
de Minas Gerais S.A (Ceasa), mas não abastecem sacolões, supermercados e
hipermercados de Belo Horizonte e Região Metropolitana (RMBH) porque perderam a
característica comercial. Por ano, são comercializadas cerca de 2 milhões de
toneladas.O desperdício no agronegócio é um retrato do custo com
logística no Brasil e afeta diversos setores. O transporte rodoviário de longa
distância de matérias primas e colheitas, distribuição urbana nos pontos de
venda e de mercadorias prontas para a comercialização, armazenagem, seguro e
rastreamento de cargas são atividades do sistema logístico, que é parte do
ciclo de todos os tipos de produtos. Sem o devido planejamento e adequação,
provocam desperdício e aumento de custos.Apenas essa despesa responde por 20% do faturamento do
agronegócio, de acordo com o estudo Custos Logísticos no Brasil 2018, do Núcleo
de Logística, Suppy Chain e Infraestrutura da Fundação Dom Cabral (FDC),
publicado em abril. Para administrar o gasto, o preço final da mercadoria fica
mais alto para o consumidor final.O estudo “Custos da Logística no Brasil 2018” é fruto de
entrevistas com 130 empresas nacionais de diversos setores econômicos que
faturaram, em 2017, 15,4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional (excluindo-se
o setor de Serviços). A pesquisa detectou que, entre 2014 e 2017, o peso médio
da logística no faturamento das empresas entrevistadas passou de 11,52% para
12,37%. Esse incremento de 7,4% corresponde a um custo extra de R$ 20,7
bilhões, no período.Além do agronegócio que gasta 1/5 do que fatura com a
logística e da indústria de construção, com 18% de custos dos quais não pode se
livrar, mineração (26,1%) e a indústria de papel e celulose (23,7%) também têm
gastos muito superiores à média nacional. ComposiçãoParte do custo logístico nacional é composta pelo transporte
de longa distância (40,1%), distribuição urbana (23,4%) e armazenagem (17%).
Como 75,9% das cargas nacionais circulam por rodovias, esse modal está no
centro das discussões sobre as perdas, desperdícios e custos extras das
empresas que embarcam suas produções pelo país afora. A avaliação dos modais
rodoviário e ferroviário foram as piores por parte dos embarcadores de carga
que participaram do estudo. Entre 1 a 5, as estradas ficaram com pontuação de
2,1 e os trens com 1,8.Segundo o professor e pesquisador da FDC, Paulo Renato de
Sousa, o estudo apontou que o resultado de tudo isso recai sobre os clientes.
“Os entrevistados também têm enfrentado essa despesa com terceirização de frota
e aumento dos prazos para entregas”, reafirmou.O ministro Dyogo de Oliveira já admitiu falta de recursos
para a infraestrutura no país, mas disse que, por isso, o governo incentiva
parcerias com a iniciativa privada. No pratoEnquanto a logística não melhora, a própria Ceasa encontrou
um jeito de minimizar as perdas.Das mil toneladas mensais de gêneros alimentícios
inadequadas para venda, uma média de 110 é reaproveitada pelo Projeto de
Distribuição de Alimentos (Prodal), do Instituto Ceasa Minas, que destina itens
para 154 instituições assistenciais. Há, também, um processo de desidratação de
legumes para a fórmula da Vita Sopa e produção de polpas de frutas que, como os
outros itens, tem destino certo e gratuito.Segundo o diretor de Relações Sociais da entidade, Flávio
Câmpara, o galpão do projeto, no entreposto de Contagem, na RMBH, recolhe,
todos os dias, cargas diversas de itens que, embora “feios”, amassados ou muito
maduros, mantêm as propriedades nutricionais.“Aqui na Ceasa, as perdas são de 50, 100 caixas. Quando vai
chegar carga nova, os lojistas pedem para a gente ir buscar porque têm que
desocupar o espaço”, exemplificou. Frete tem reflexos até no valor final do imóvel Entre 2014 e 2017, o Custo Unitário Básico de Construção
(CUB/ m²) acumulou alta de 25,09%. Calculado pelo Sindicato da Indústria da
Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG), ele é usado como
mecanismo de reajuste de preços em contratos de compra e venda de apartamentos
em construção e até como índice setorial.Esse percentual significa que ficaram mais caros para o
consumidor os imóveis vendidos no Estado. E isso ocorre levando em conta
diversos fatores. Um deles, é o frete despendido no transporte dos insumos.“Quando compramos os materiais, por exemplo, recebemos duas
notas em uma. A primeira é do produto em si e a outra do frete correspondente,
embora o preço do contrato seja fechado. Em alguns casos, o frete chega a ser
maior que o preço do insumo”, explicou o vice-presidente do Sindicato da
Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG), Geraldo
Linhares.A regra, que vale para insumos primários como concreto,
tijolo e aço, também pode ser aplicada para os acabamentos. Como as compras são feitas direto na fábrica, o valor do
serviço de transporte da mercadoria depende de fatores como distância a ser
percorrida e prazo para entrega, dentre outros.O economista e gerente do Sindicato das Empresas de
Transporte de Cargas do Estado de Minas Gerais, Renato Marques, ressaltou que o
transporte das cargas é parte do custo logístico. O valor do serviço não pode ser padronizado porque depende
do tipo de produto, da rota/condição da estrada, do modal escolhido, do tamanho
do caminhão e, também, do prazo para entrega. “Temos que lembrar que, mesmo se o transporte for aéreo,
tanto no embarque e no desembarque será preciso usar a rodovia para que o
produto chegue ao seu destino”, destacou.No país, o tabelamento, feito pelo governo federal em 30 de
maio, provocou reação da indústria, que julgou-se penalizada, e dos
caminhoneiros. O assunto é polêmico e deve ter um desfecho ainda nesta semana. Preços mais altos por deficiência na infraestruturaA coordenadora da Assessoria Técnica da Federação da
Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Sistema Faemg), Aline Veloso,
reconhece que, no caso do agronegócio, as diversas cadeias produtivas sofrem
com perdas e desperdícios. “O prejuízo do produtor rural é grande, ao longo de
toda a cadeia produtiva e, com a redução da oferta, os preços aumentam para o
consumidor final”, afirmou.Segundo a técnica, mais de 70% das cargas de produção do
agronegócio passam pelas rodovias que, nem sempre, estão em boas condições para
circulação de veículos pesados. Com isso, o escoamento fica mais lento e ainda
há perdas nas quantidades dos grãos, devido à trepidação dos caminhões,
principalmente nas longas distâncias.A demanda do agronegó-cio pela melhoria da infraestrutura é
uma reivindicação antiga do setor, segundo a coordenadora. Somando-se a isso,
há falhas específicas do sistema logístico adotado pelos produtores, como
acontece com as cargas de hortifrúti, que demandam condições especiais de
temperatura no transporte e armazenamento, para se manterem em condição de
venda no distribuidor. “Na greve dos caminhoneiros, a falta de caminhões
refrigerados gerou muitos prejuízos e os preços dispararam”, lembrou.O transporte de animais também requer certos cuidados, segundo
Aline Veloso. Quando mal acondicionada, ou quando o trecho é longo, essa carga
também pode ser machucada, o que deprecia o valor do produto vivo e, também, na
hora do abate.
Fonte: Hoje em Dia