Publicado em: 11/08/2026

O transporte rodoviário de cargas vive um cenário de transformação permanente. A alta dos custos operacionais, a dificuldade para encontrar motoristas, o aumento das exigências regulatórias e a necessidade de investimentos em tecnologia tornaram a gestão das transportadoras muito mais complexa do que há poucos anos.

Um detalhe, porém, ainda passa despercebido por muitas empresas: os contratos comerciais continuam sendo elaborados como se a estrutura de custos do setor fosse a mesma.

Segundo levantamento do Departamento de Custos Operacionais da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística, combustível, veículos e mão de obra representam mais de 90% dos custos operacionais das transportadoras brasileiras. O combustível responde por 43,2%, os veículos por 29,1% e a mão de obra por 19,5% da composição dos custos.

Para o advogado Cristiano José Baratto, especialista em Direito do Transporte e Logística, esses números revelam um problema que vai além da gestão financeira.

“Durante muitos anos, a negociação dos contratos ficou praticamente restrita ao valor do frete e ao impacto do diesel. Hoje, essa lógica já não representa a realidade do setor. A folha de pagamento, os custos com tecnologia, seguros, compliance e gestão de riscos também cresceram significativamente e precisam estar refletidos na estrutura contratual.”

De acordo com o advogado, muitas transportadoras conseguem controlar custos operacionais, investir em eficiência e modernizar suas frotas, mas continuam utilizando contratos elaborados anos atrás, quando o cenário econômico era completamente diferente. “O empresário investe na operação, mas esquece de revisar o instrumento que regula toda a relação comercial. Isso faz com que novos custos sejam absorvidos pela transportadora sem qualquer mecanismo contratual de compensação.”


CONTRATOS E A EVOLUÇÃO DO MERCADO

Na avaliação do especialista, um dos erros mais comuns é prever mecanismos de reajuste apenas para oscilações no preço do diesel. Embora o combustível continue sendo o principal componente da estrutura de custos, ele deixou de ser o único fator capaz de comprometer a rentabilidade das operações.

Baratto fala que o custo da mão de obra tem peso crescente nas despesas das empresas, assim como investimentos em tecnologia, rastreamento, segurança da carga, sistemas de gestão e adequação às exigências regulatórias. “Quando o contrato não contempla essas variáveis, cria-se um desequilíbrio econômico que normalmente recai apenas sobre a transportadora”, analisa.

Para ele, o contrato deixou de ser apenas uma formalidade jurídica para se tornar um instrumento de gestão empresarial. “Empresas que revisam periodicamente seus contratos conseguem negociar melhor a distribuição dos riscos, estabelecer critérios objetivos para reequilíbrio econômico e reduzir conflitos futuros. Isso impacta diretamente a rentabilidade da operação”, pontua.


SEGURANÇA JURÍDICA

A profissionalização do transporte rodoviário não depende apenas de investimentos em frota, tecnologia ou eficiência logística. Na visão de Cristiano Baratto especialista, ela passa também pela revisão da forma como as relações comerciais são estruturadas. “É comum vermos empresários preocupados em reduzir centavos no consumo de combustível, enquanto operam durante anos com contratos que transferem integralmente riscos financeiros para a transportadora. Em muitos casos, a maior oportunidade de ganho não está na estrada, mas na mesa de negociação”, observa, ponderando que a gestão contratual deixa de ser uma questão exclusivamente jurídica e passa a integrar a estratégia financeira das empresas.


Fonte: Bem Paraná

Transportadoras modernizam operação mas esquecem de atualizar contratos, alerta especialista